A base vinha forte… e agora??

Por Rafael Cobra de Toledo Piza

Vivemos atualmente uma situação poucas vezes antes experimentada pela humanidade, reforçada a dramaticidade do momento pelo absoluto desconhecimento da proporção que esta pandemia alcançará em cada região do planeta.

Uma coisa é certa: os impactos alcançarão a todos, no sentido mais amplo possível do termo, sejam pessoas físicas ou jurídicas, independente de suas áreas de atuação profissional ou ambiente social que convivam; as sequelas sociais e econômicas serão inevitáveis, cabendo a cada um buscar a renovação necessária para nova realidade que se apresentará.

E se todos serão afetados, com as atividades esportivas não seria diferente, em especial por sua capacidade de congregar pessoas, algo até então tido como positivo e hoje absolutamente reprovável….que tempo vivemos, senhoras e senhores!

Trazendo o foco da análise para a atividade esportiva, em atenção especial ao alto rendimento – o que notadamente deve inserir o processo de formação dos atletas – as consequências da pandemia já são perceptíveis neste especial mercado, com a redução dos salários dos atletas e demais profissionais ligados aos clubes em todas as partes do planeta, cada qual com a sua particularidade, redução/cancelamento de cotas de televisionamento e patrocínios, entre outras circunstâncias.

Muito tem se debatido sobre o momento que as competições desportivas retornarão e, especialmente, sob quais condições para que garantam satisfatória segurança à saúde dos participantes do evento (sim, deve ser considerado um número amplo de pessoas envolvidas de forma direta e indireta em uma partida/prova desportiva) e, também, as implicações (e complicações!!) na relação de trabalho de atletas e seus clubes.

Necessária a análise sobre os dois aspectos acima apontados diante da inegável relevância dos temas. Particularmente defendo a posição que a excepcionalidade da circunstância requer medidas proporcionalmente excepcionais e, seja qual for a linha de conduta adotada, sempre será alvo dos mais variados questionamentos, entre pertinentes e outros nem tanto…

Contudo, quero trazer à reflexão tema pouco mencionado até o momento, ao menos na minha percepção, com o olhar aos inevitáveis impactos que a pandemia do Covid-19 trará ao processo de formação desportiva de nossos atletas, mais especificamente aos da modalidade futebol para não esbarrar em particularidades de outras modalidades esportivas igualmente relevantes.

Aos que minimamente acompanham o processo de formação desportiva de um atleta de futebol, é fato incontroverso a extrema importância que cada período e estágio de treinamentos têm no árduo e sinuoso caminho que as crianças/atletas percorrem na busca do sonho que habita o coração/mente de cada um deles.

 Como característica organizacional, as competições esportivas das categorias de base no Brasil são definidas por categorias, definidas sempre pelo ano de nascimento de cada atleta. Exemplificando: no Estado de São Paulo, a Federação Paulista de Futebol organiza competições oficiais a partir da categoria sub 11, nesta atual temporada formada por atletas nascidos nos anos de 2009 e 2010; sucedendo-a, vem as categorias sub 13 (07-08), sub 15 (05 e 06), sub 17 (03 e 04) e sub 20 (00, 01 e 02).

Como mencionado, cada uma das temporadas tem extrema importância para o desenvolvimento de um atleta, seja pela rotina de treinamentos com profissionais capacitados, seja pela participação em partidas oficiais, onde as conquistas e fracassos são tijolos obrigatórios na construção de uma carreira desportiva que busca o alto rendimento.

Tamanha a relevância do intercâmbio competitivo entre os atletas em fase de formação desportiva que a Confederação Brasileira de Futebol vem, ano a ano, ampliando o rol de competições de âmbito nacional entre os clubes de todas as regiões do país.

A recente capacitação dos profissionais envolvidos no processo de formação desportiva dos nossos atletas, aliados à adoção de metodologia de treinos mais voltada à capacidade técnica do que exclusivamente à parte física e tática são alguns dos fatores que vinham melhor qualificando os jovens jogadores formados nos mais variados clubes do Brasil.

A imposta e necessária paralisação nas atividades esportivas, mesmo que para rotina de treinamentos (vale destacar que neste momento iniciam os primeiros protocolos para retomada da rotina de treinamentos em ligas europeias, caminho seguido em nosso país) trará danos seríssimos ao processo de formação desportiva dos atletas de futebol, que terá como consequência um “achatamento na curva” (para usar o termo da moda) de crescimento da qualidade técnica dos nossos jovens jogadores, perceptível principalmente pela geração dos anos 2000 e seguintes, notadamente de boa capacidade técnica.

Imaginem o quão importante é (ou seria?) a atual temporada desportiva para um atleta nascido no ano de 2005, por exemplo. Estes tem idade limite na categoria sub 15 e um enorme número de meninos se preparam e almejam atuações de destaque ao longo das competições, seja em equipes de menor estrutura e capacidade financeira a fim de conquistarem novas oportunidades em entidades de prática desportiva que lhes garantam melhores condições de continuar o difícil e doloroso caminho da formação desportiva, ou já nos grandes clubes do Brasil a fim de queimar etapas dentro da agremiação.

Mesmo para os atletas que tenham idade de primeiro ano em cada categoria (06, no exemplo acima destacado, para melhor compreensão), é de suma relevância a rotina de treinamentos com atletas um ano mais velhos e, para casos excepcionais, há os atletas que, mesmo mais jovens e teoricamente menos desenvolvidos/maturados fisicamente, conseguem a titularidade em suas equipes, o que lhes antecipa ainda mais o processo de amadurecimento.

O que dizer dos atletas nascidos no ano 2000, que tem nesta a última temporada para atuar em competições de categorias de base e chamar a atenção seja de seu atual clube ou outros para alcançar o nível das competições profissionais? O dano esportivo é inafastável…

Conheço inúmeros casos concretos que refletem os exemplos acima citados, em todas as categorias do processo de formação desportiva e, por tal razão, entristeço-me em notar que muitos atletas terão seu caminho na busca do sonho de se tornar atleta profissional de alto rendimento dificultado ainda mais (para não dizer inviabilizado em muitos casos) por este duríssimo e inesperado “adversário”.

Outros aspectos ganham relevância junto à falta de rotina de treinos e partidas oficiais, que certamente são pilares fundamentais na formação desportiva de um atleta, como os já perceptíveis problemas psicológicos que atinge alguns jogadores neste momento, desde profissionais já consagrados aos mais jovens e sonhadores.

O acompanhamento psicológico dos atletas será ainda mais necessário e produtivo quando permitido o retorno às atividades esportivas; poucos são os atletas mentalmente bem preparados para lidar com situações adversas, quiçá com uma condição de extrema gravidade e com consequências ainda desconhecidas como a atual; certamente teremos sérios problemas nesta seara, infelizmente.

Os efetivos impactos somente saberemos, ou tentaremos mensurar, quando a rotina da sociedade (e portanto a desportiva, sem que esta tente se antecipar àquela) possibilitar atividades coletivas próximas da existente antes da pandemia do Covid-19, pois igual imagino que não teremos.

Gostaria de concordar com os que projetam o retorno das atividades esportivas ainda no primeiro semestre, com o início do período de treinamento no mês de maio, vislumbrando retomada das competições esportivas no mês de junho, mas, sinceramente, não me parece viável e seguro este entendimento.

Sabemos que os protocolos indicarão início de treinamento em grupos reduzidos de atletas, com diferentes turnos e duração restrita do tempo dos treinos, o que, aliados ao longo período de inatividade quase plena dos atletas, inviabilizará que o retorno das competições seja breve, ao menos na minha ótica.

Supondo que as atividades esportivas retomem seu curso apenas no segundo semestre (e aqui projeto competições a partir de agosto/setembro), inexorável os prejuízos ao processo de formação desportiva dos atletas; há que se considerar a temporada 2020 como “perdida” para o conceito ideal (ou perto disso) de formação desportiva para atletas.

No início deste artigo mencionei que a situação excepcional que a humanidade enfrenta requer a adoção de medidas proporcionalmente excepcionais para mitigar ao máximo os efeitos danosos da pandemia.

Neste sentido, minha contribuição se expressa na sugestão de que as entidades de administração do desporto no Brasil revejam, de forma definitiva, a classificação etária na definição das categorias para formação desportiva dos atletas, passando a adotar como parâmetro os anos pares (exceção ao sub 21) como limite de participação dos atletas: assim, a temporada de 2021 passaria a ser definida da seguinte forma: sub 12 (09-10), sub 14 (07-08), sub 16 (05-06), sub 18 (03-04) e sub 21 (02-01-00).

Desta forma, devolver-se-ia aos atletas as oportunidades e experiências práticas que cada ano tem em seus processos de formação desportiva, indispensáveis ao seu melhor desenvolvimento e, assim, buscar limitar ao máximo os impactos que a atual situação mundial nos impõe.

A reflexão se faz necessária e o momento não nos permite apontar para soluções únicas e milagrosas; todas as alternativas devem ser analisadas…

Como todos diziam: “A base vem forte” e vinha mesmo!! …mas e agora???

……….

Rafael Cobra de Toledo Piza é advogado especialista em Direito Desportivo e presidente da Comissão de Desportivo da OAB Direito Santos.

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