A insustentável dureza do ser

A Insustentável leveza do Ser (1983) é um romance de Milan Kundera onde é contada a história do relacionamento de dois casais – Tomás e Teresa; Sabina e Franz – que buscam viver uma vida sem responsabilidades. Seus personagens são inconsequentes, superficiais e procuram levar sua vida de maneira extremamente “leve”.

Kundera traz à tona a reflexão sobre a forma pela qual devemos viver a nossa vida, colocando em destaque o dilema entre conduzir-se de forma superficial e pueril ou agir de maneira responsável e séria, contrapondo peso e leveza.

Muito tempo atrás os romanos já haviam escolhido em qual lado deveriam ficar, ao valorizarem a virtude da Gravitas (muito utilizada no Direito à época) que literalmente significa “peso” e representava o traço de uma personalidade ética, séria e apegada à honra e ao dever.

O autor deixou transparecer seu ponto de vista na mesma diretriz, ao nos mostrar que tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba se revelando de um peso insustentável.

A Covid está aí para indicar o acerto desse pensamento. A insubordinação da sociedade às regras de prevenção e a busca por um estilo de vida sem limitações, agravaram a pandemia no mundo e em especial no nosso país.

Veja-se, por exemplo, no esporte. O Comitê Olímpico Internacional, a qualquer custo, quer porque quer realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio neste ano. Os interesses comerciais falam mais alto e é muito mais fácil manter a realização da competição do que assumir o ônus de adiá-la.

É triste ver o COI rasgar a sua própria Carta Olímpica, aplicando-a apenas quando lhe é conveniente, pois logo no art.2º do documento consta ser papel do COI, dentre outros, o de “encorajar e apoiar medidas de proteção da saúde dos atletas”.

No Brasil a situação é a mesma. As competições continuam e as equipes se deslocam por enormes distâncias num país com dimensões continentais. Fica mais leve para os responsáveis agir assim do que assumir o peso de criar a chamada “bolha”, que foi bem sucedida tanto na NBA quanto no UFC.

Dando o peso que o tema requer, a Lei nº 9.615/98, prevê logo no seu art. 2° Inciso XI, que o desporto tem como base o princípio “da segurança, propiciado ao praticante de qualquer modalidade desportiva, quanto a sua integridade física, mental ou sensorial

Infelizmente a carga de ter que seguir a lei foi substituída pela singeleza de ignorá-la completamente. Só que essa forma leve de agir trará como resultado as mortes que sua inconsequência provoca. Seria muito melhor assumir o peso da responsabilidade de proteger a vida de todos, do que carregar o fardo da culpa que a consciência individual e coletiva não deixarão esquecer.

Kundera nos lembra no livro que “Não há nada mais pesado do que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, por outro, no lugar de outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos“.

Compaixão é precisamente o que mais nos falta nesse momento. É triste constatar em pleno século XXI quantas pessoas não possuem respeito e consideração pela vida do próximo e porque não dizer pela própria vida, já que muitos irresponsáveis morreram pela forma leviana como se portaram.

É inadmissível a leveza como as autoridades públicas e esportivas estão lidando com a pandemia, mas não apenas elas são dignas de reprovação social. Torcedores se aglutinam em torno de estádios, aeroportos e em logradouros públicos. Por sua vez, jogadores, cuja conduta costuma ser copiada pelos fãs, são flagrados em festas, aglomerações ou se amontoando em casinos clandestinos…

Em que pese os pedidos feitos pela comunidade cientifica, é de assustar a irredutibilidade das posições tomadas por essa gente, cuja maioria, embora não verbalize expressamente, demonstra, através de seus atos, o que realmente pensa de tudo isso.

Mas há quem chegue a vocalizar a indiferença quanto ao sofrimento e a dor das pessoas doentes ou daquelas que perderam seus entes queridos, como o atual mandatário da nação. Teve o presidente o desplante de dizer que as pessoas deveriam deixar “de frescura, de mimimi,” e indagou “até quando ficariam chorando”.

Não há nada que possa justificar essa fala tão odiosa, desumana e cruel.

É insustentável a dureza desse ser.

E a dureza dos outros seres também.

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