A liga e a grande oportunidade

Por Renato Gueudeville

A pauta futebolística das últimas semanas foi dominada pelo surgimento daquela que poderá vir a ser a liga dos clubes das Séries A e B.

Dirigentes dos mais diversos perfis – alguns bons gestores e outros que sequer sabem o significado de uma boa administração – se juntaram em um time dos 40 clubes pertencentes as principais divisões do nosso futebol com a intenção, formalizada por documento, de organizar o campeonato brasileiro já a partir de 2022.

Não é preciso se aprofundar tanto no assunto para entender que a coletividade, trabalhada através de uma estratégia unificada, tem todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de um produto diferenciado no mercado. Ainda mais quando se trata de futebol brasileiro, este com tantas lacunas ainda para fechar.

E aqui é importante lembrar que o nosso futebol, através do Clube dos 13, esteve na vanguarda mundial desse movimento, nascendo até antes daquela que é hoje a principal liga do mundo: a Premier League.

Após uma CBF combalida financeiramente avisar aos clubes que não organizaria o Brasileirão de 1987, não restou outra opção senão o sistema buscar a solução através da união dos 13 maiores clubes da época em torcida, representatividade e influência política. Não foi uma decisão tomada após estudos de mercado, convergência de interesses e vislumbre do futuro. Foi uma necessidade.

Platão dizia que “a necessidade é a mãe da invenção”.

E qual a conjuntura atual do futebol brasileiro? Alguma esperança no ar?

E ela, “A Mãe Necessidade”, eis que surge numa versão mais aterrorizante, nas vestes dos anos atuais.

Hoje, 34 anos depois, desta vez não é a CBF que está quebrada. São os clubes.

A confederação e os seus mais de R$ 850 milhões disponíveis em caixa, de acordo com o balanço de 2020, é um dado para dar inveja a qualquer participante na lista das 500 maiores empresas do país. Na outra ponta, os clubes altamente endividados, com dívidas parceladas por décadas, sofrendo com bloqueios judiciais e outras agruras.

Um curioso caso de geração de riqueza e pobreza de participantes de um mesmo ecossistema.

Décadas de más gestões, irresponsabilidades administrativas e corrupções formaram a química perfeita para uma tragédia que foi construída em atos, como uma peça de teatro em que o enredo caminhava para um final previsível.

Abaixo, um gráfico que exemplifica uma destas cenas que formaram o ato.

A imagem acima foi retirada do relatório Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol, do Itau BBA, elaborado por César Grafietti, economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. O estudo aborda as demonstrações financeiras de 2020 de 25 clubes.

A dívida total deles cresceu 153% de 2012 até 2020 enquanto as receitas brutas evoluíram 22% no período. Leia de novo a frase anterior.

Uma análise mais precipitada pode levar a conclusão de que a pandemia da Covid-19 agravou o quadro deles. Sem a menor dúvida. Então façamos o corte da análise até 2019: incríveis 111% de aumento, mesmo com a criação do Profut em 2015 e um grande perdão de dívidas federais.

Sim, o grande financiador do futebol brasileiro sempre foi o governo federal. E, como não existe almoço grátis, essa conta você e eu já sabemos quem paga.

A doença que assola os clubes brasileiros todos nós já estamos cansados de saber.

Toda essa química perversa levou 5 campeões brasileiros à Série B de 2021 (Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Guarani e Vasco), eles que têm nada menos do que 12 títulos nacionais.

No Brasil, nas mais diversas áreas e segmentos, temos a péssima prática de buscar as soluções quando estamos “no corner”, tal qual um lutador de boxe que tenta tirar da adversidade de um knockout iminente, a redenção de uma vitória histórica. Procrastinar pode trazer a falsa sensação de ausência de problema imediato, mas o fracasso é certo no futuro.

Por que uma indústria que movimenta cerca de R$ 5 bilhões/ano (somente com esses 25 clubes citados) insiste em conviver com baixíssimo nível de uma arbitragem que não é profissionalizada, gramados ruins, nível técnico de jogo sofrível, comissões técnicas que duram em média 6 meses no cargo e clubes que chegam a jogar 75 partidas em uma temporada?

Por que essa mesma indústria não consegue colocar você, torcedor, no centro de toda estratégia?

Se isso de fato acontecesse, o Palmeiras e a WTorre não teriam sido condenados a pagar indenização para torcedores por causa da má visibilidade da torcida visitante em jogo contra o Bahia em 2019, conforme foto abaixo.

Nós estamos falando do Allianz, que é reconhecidamente um dos melhores equipamentos no país.

No último Reunião de Pauta – Vai dar Liga? O que o mundo pode nos ensinar –, o Futebol S/A recebeu Albert Castelló, delegado da La Liga para o Brasil. De controle financeiro austero a inovações tecnológicas que visam elevar o patamar da experiência do torcedor, a La Liga é um grande case de construção de marca, reputação, engajamento, internacionalização e atratividade de grandes patrocinadores.

Uma liga no Brasil, neste momento, é uma boa oportunidade de iniciarmos a grande reestruturação do futebol brasileiro. Trabalho para algumas décadas e que precisa ser iniciado já.

E essa estruturação precisa chegar com alguns “itens de série”, como: gestão profissionalizada de gente do mercado, governança e transparência inegociáveis a todos os participantes, respeito e cumprimento ao pactuado no Profut, fair play financeiro vigente e com punições que sejam cumpridas rigorosamente, venda de direitos de transmissão de forma coletiva, discussão séria de um novo calendário, profissionalização da arbitragem… a lista é enorme e não termina aqui.

E claro que a estratégia unificada, debaixo de um grande bloco, aumentará o tamanho do bolo financeiro. O Brasil é uma das últimas grandes nações do futebol que não tem uma liga profissional. É ainda uma pedra que se bem polida pode virar um bom produto para uma mídia que precisa, cada vez mais, de novos motivos para entreter sua audiência. A evolução é necessária.

E estamos evoluindo. A transparência, citada anteriormente, foi um item que reconhecidamente melhorou. A grande maioria dos clubes da A publicam seus balanços dentro do prazo estabelecido, auditados por empresas e auditores independentes e alguns deles com relatórios de administração muito completos

A liga não pode perder a oportunidade de colocar clubes e torcedores no centro da estratégia. Esse esporte existe por eles e para eles.

O futebol brasileiro tem uma chance única que é dada aos que iniciam com alguns anos de defasagem: aprender com os bons exemplos e se distanciar do que deu errado no mundo.

Esse jogo precisa de uma virada. Ou fazemos isso agora, ou os “7×1” serão somente mais um ato de um enredo cruel que insiste em provar, todos os dias, o amor e a resiliência entre plateia(torcedores) e atores(clubes).

……….

Renato Gueudeville é administrador de empresas com MBA em Finanças Corporativas. Gestor com sólido conhecimento em reestruturação empresarial e atuação pelas principais instituições financeiras do país. Acredita que, no mundo da bola, fora da gestão não há salvação. É sócio do Futebol S/A.

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