A nova ótica de um mercado esportivo que espera transformação

Por Alberto Goldenstein e Luiza Rosa Moreira de Castilho

Ao se defrontar com o direito ao entretenimento não se pode deixar para trás os valores mais caros da sociedade, vinculados à humanidade do ser humano e aos objetivos necessários para a construção de uma sociedade mais justa e igual. Dessa forma, o apelo mercadológico que o entretenimento nos propicia não pode, jamais, ser analisado sem um apurado olhar sobre as condições da sociedade, em especial no que refere a pautas atuais e fundamentais como a igualdade de gênero.

O entretenimento hoje não é só vender, mas a responsabilidade por essa venda. Em suma, as vendas devem e precisam ser conscientes com os valores de mundo, e coerentes com o discurso do desporto, sendo que violações destes valores podem gerar efeitos que, em todas as vezes, impacta no negócio desenvolvido.

Em análise desta temática ora levantada, como exemplo, no último dia 10 de março de 2021, apenas dois dias após a celebração do dia internacional da mulher, torna-se público que uma agremiação no voleibol italiano rescindiu contrato com a uma atleta após comunicar ao clube que estava grávida. Laura Lugli, atuava pelo Volley Maniago Pordenone e sofreu um aborto espontâneo pouco tempo depois dos fatos ocorridos há dois anos.

Não bastasse a ausência de pagamento do salário do mês de fevereiro anterior ao desligamento da jogadora, o clube ingressou uma demanda indenizatória, por entender que a atleta violou a boa-fé contratual ao não informar que possuía a intenção de ser mãe, culminando em perdas e danos para a agremiação. Cenários como esses não teriam adequação na norma brasileira, já que temos diversos dispositivos que zelam pela gravidez não só dentro do âmbito trabalhista, como da sociedade em geral. Não é à toa que um dos direitos fundamentais previstos na nossa Constituição é o de proteção à maternidade.

Em caráter internacional, dentre as demais regras próprias de cada Estado e Federação, ainda se tem as regras olímpicas, em especial a carta olímpica, que prega a igualdade e erradicação do preconceito por meio do desporto. Os princípios fundamentais trazidos ali definem as obrigações das demais entidades de administração desses esportes, sendo impensável que permaneça tal posicionamento por parte de agremiações na atualidade.

Ainda, imperioso destacar que, independentemente da profissão, a maternidade não é tarefa fácil de conciliar, mas nem de longe significa a consumação de uma carreira. Tão logo, a FIFA editou o novo RSTP, alguns dos assuntos mais comentados foram as disposições atinentes às atletas gestantes e lactantes. Aquele instrumento trouxe uma grande perspectiva para mulheres no futebol ao redor do mundo.

Pensa=se que o futebol, com todo o atraso causado pelos impedimentos históricos, ficaria atrás nesse sentido. A verdade é que não é uma modalidade ou outra que reflete para a coletividade os ideais retrógrados e preconceituosos, mas a sociedade por si que retrata esses julgamentos, apenas respingando em determinados microssistemas, como é o esporte.

Qualquer que seja a entidade que se deixa influenciar apenas pelas convicções de uma sociedade doente, e que se dirige para vender entretenimento a qualquer preço já está perdendo espaço. Nesse exemplo, e com a grande repercussão do caso da atleta italiana, o Pordenone deletou todas as suas redes sociais, incluindo o endereço eletrônico oficial, com a justificativa de que recebeu ameaças e insultos através desses meios.

Ainda não se sabe qual será a conclusão desse enredo, porém, o que infere é que a decisão adotada pela agremiação foi prejudicial para sua imagem, e consequentemente para todos os efeitos vinculados à essa. Não se pode permitir a existência de um futuro frutífero para outros contratos espelhados no caso do Pordenone.

É notável que estamos evoluindo para chegar em um ponto onde não se aceita mais esse tipo de atitude discriminatória, mas o discurso isolado não basta. Temos que construir um caminho favorável para a regulamentação de padrões mínimos e condições de trabalho para as atletas de todas as modalidades, não só no futebol.

A verdade é que nem deveríamos estar discutindo a possibilidade de isto acontecer ou não. Tem que ser feito!

Nos últimos anos, até houve progresso no sentido do empoderamento das mulheres e igualdade de gênero, inclusive através da atuação do Comitê Olímpico Internacional. Entretanto, enquanto o espetáculo for colocado em posição acima da vida, estaremos alimentando o peso de uma balança que não aguenta muito tempo.

Manter em pauta o debate sobre a representação feminina auxilia na expansão do movimento esportivo. O esporte precisa plantar a semente da mudança na sociedade, ainda que seja, inicialmente, dentro do próprio contexto, a fim de mudar aquela visão de que deve absorver e aceitar tudo o que vem de fora.

É mister que a falta de um atleta, por quaisquer razões, pode alterar a previsão de resultados pela equipe, mas não é sobre isso. A consciência de sociedade e justiça vai além do básico.

Para administrar uma entidade esportiva e não sofrer as consequências mais pesadas pela adoção de decisões equivocadas, os conceitos pessoais dos operadores da mais alta gestão devem ultrapassar a paixão.

As redes sociais têm se mostrado o quanto a narrativa dos clubes e federações tem se entrelaçado com causas importantíssimas na sociedade. Infelizmente, muitos dos comportamentos práticos nos mostram, fortemente, o contrário.

De nada adianta a criação de um discurso muito vibrante, quando as atitudes tomadas são voláteis. E, sem falar dos efeitos que se desenvolvem quando muitas dessas façanhas golpeiam a parte hipossuficiente, é também de se considerar a triste repercussão e até destruição de um legado das próprias instituições.

O esporte pode ser uma das grandes forças mundiais. Ele é o meio para se edificar grandes feitos dentro e fora dele mesmo. Apesar disso, as partes que o compõem não são indestrutíveis. Enquanto existir a falsa ideia de que em campo tudo é possível, desde que seja em prol do jogo, o entretenimento será falho.

Tamanhas são as causas que é possível abraçar e, efetivamente, defender. Pode soar fácil, mas de fato não é. É pontualmente em razão disso que o debate precisa continuar e ir além da noção laboral do esporte, entendendo sua função coletiva e global, que certamente ganhará o mercado. Mercado este que é freguês do espetáculo, e que sempre espera mais dos que um simples produto rentável, espera mudança.

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