A profissionalização do atleta de karatê: MMA ou Karate Combat?

Por Elthon Costa

Com o advento das Olimpíadas de Tóquio, onde pela primeira vez o caratê teve sua inclusão, até então restringida devido aos variados estilos e regras de competição, pudemos presenciar a ascensão de vários atletas da modalidade até então desconhecidos do grande público, isso no mesmo palco sagrado onde a arte apareceu para o mundo, o Nippon Budokan.

Ocorre que, findado o ciclo olímpico, muitos desses mesmos atletas tendem a não retornar às competições, já que é sabido que o karatê não estará mais presente nas próximas edições dos Jogos. Diante disso, quais seriam as opções para o atleta que não deseja abandonar a arte como competidor?

Destarte, alguns buscam o MMA, modalidade desportiva de artes marciais variadas, onde o atleta firma contrato para competir por determinada liga, muitas vezes de maneira exclusiva e por tempo prolongado, o que por vezes faz com que o atleta perca a identificação com a arte marcial formadora, juntando-se à massa crescente de competidores dessa modalidade.

Cabe ressaltar também que, no MMA, o atleta de karatê precisaria se adequar à nova realidade competitiva e às novas regras, treinando novas artes marciais que compõe o corpo técnico da modalidade, e muitas vezes, por já estar em uma idade mais avançada, o atleta não dispõe de tempo suficiente para adquirir a expertise necessária. Portanto, nem sempre essa é a melhor opção.

Nesta senda, surge o Karate Combat. Com seu início em 2018, o Karate Combat ainda é um competidor relativamente novo na arena de esportes de combate. Para os atletas do karatê que buscam um torneio mais tradicional, próximo das regras de suas federações, o Karate Combat pode ser a solução. É mais fácil, em tese, para um atleta do chamado karatê olímpico fazer a transição para um sistema “full contact”.

No karatê olímpico, a luta é baseada em um sistema de pontuação, projetado para executar e recompensar golpes rápidos, nítidos e limpos. Com a luta por pontos, o objetivo é marcar mais pontos do que seu oponente por meio de técnicas eficazes de golpes e raspagens / arremessos / quedas, e a luta é interrompida por um árbitro toda vez que um ponto é marcado, para conceder o ponto e reiniciar a luta.

Os atletas olímpicos de karatê lutam sob as regras das WKF (World Karate Federation), cujo sistema de pontuação é o seguinte:

  • Ippon: 3 pontos. Concedido por chutes na cabeça ou qualquer técnica de pontuação aplicada a um oponente arremessado ou caído;
  • Waza-Ari: 2 pontos. Concedido por chutes na seção média do corpo;
  • Yuko: 1 ponto. Concedida por socos na cabeça ou no corpo do oponente.

O objetivo do caratê por pontos não é incapacitar seu oponente, mas (no caso das Olimpíadas de Tóquio) ganhar oito pontos a mais do que eles a qualquer momento, ou acumular mais pontos (se menos de oito) ao final de um único round de 3 minutos.

Com o objetivo de revitalizar e promover a arte marcial e o esporte do caratê, trazendo-o para a era moderna e digital para atrair um público mais jovem, O Karate Combat apresenta um sistema de regras diferenciado, estando mais próximo de uma luta de MMA. Isso é favorável para uma adaptação mais rápida tanto do atleta do karatê olímpico (sistema da WKF), como para o atleta que compete sob o sistema de outras federações, como a JKA, a ISKF, a SKIF, etc.

No Karate Combat, uma luta dura 3 rounds de 3 minutos, onde wrestling, finalizações, joelhadas, cotovelos e uppercuts não são permitidos. Já técnicas de arremesso são permitidas. Um oponente em pé pode usar socos no chão, e um oponente no chão pode usar socos e chutes, incluindo chutes para cima, por um período de 5 segundos. Após esse tempo, o árbitro intervém e coloca o adversário no chão novamente em pé e a luta reinicia.

Sempre que um lutador é ferido por um golpe ilegal, o que faz com que o tempo seja interrompido, ou finalizado por nocaute ou nocaute técnico, o oponente ileso deve assumir a posição ajoelhada tradicional (seiza) no lado oposto da arena até que o oponente se recupere ou o árbitro indique que o lutador ileso deve subir. Um lutador pode se submeter ao seu oponente batendo com a mão continuamente em qualquer área da arena, colocando um joelho no chão e uma mão acima de sua cabeça ou submetendo-se verbalmente ao árbitro. O sensei de um lutador pode conceder a luta jogando a faixa branca fornecida para cada canto no box e notificando imediatamente seu inspetor de canto.

Para os lutadores que competem fora do circuito do karatê olímpico, o Karate Combat pode abrir a porta para uma chance no mercado profissional, sendo uma forma esportiva interessante de abordagem à essa antiga marcial que valoriza o respeito e a honra. A presença de tais valores é sempre importa para a identificação do atleta com a liga esportiva.

Tendo contratado mais de 100 dos melhores lutadores de caratê de mais de 30 países, dando aos fãs de todo o mundo a oportunidade de apoiar os lutadores de suas nações, o Karate Combat aparece como uma opção interessante aos atletas brasileiros, sendo que alguns muito relevantes no circuito competitivo mundial já integram o elenco da liga. A tendência é esse numero aumentar nas próximas temporadas.

Convém sempre lembrar que, à luz dos arts. 3º, §1º, inciso II, 26, parágrafo único, 28 e 94 da Lei n. 9.615/98, o atleta de karatê, embora envolvido em desporto de alto rendimento, não é considerado profissional, já que esta controversa classificação depende de remuneração estabelecida em contrato formal de trabalho entre a entidade de prática desportiva e o atleta.

Embora haja a citada lacuna legislativa, diante de tais opções de ligas profissionais para competir, fica difícil aceitar que, embora não conceitualmente enquadrado como profissional pela lei, o atleta de karatê de fato não o seja, uma vez que vive do desporto, sendo tal inanidade uma falha a ser corrigida em futuras atualizações da legislação desportiva.

Crédito imagem: Flickr

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