Bolaplanismo

Por Tom Assmar

A Psicologia ensina que o indivíduo entra em estado de negação quando constrói suas relações de vida a partir da rejeição sistemática da realidade objetiva dos fatos. Ela seria um mecanismo de defesa da nossa mente, através do qual nos recusamos a ter percepções negativas para nos afastarmos do sofrimento. Porém, na prática acabamos por construir uma ilusão momentânea e temporária, uma vez que a busca exclusiva pelo conforto emocional apenas nos afasta da essência cotidiana da vida, feita por alegrias e tristezas, conquistas e derrotas.

Esse estado de negação individual pode ser extrapolado para um estado coletivo, uma vez que em maior ou menor escala vários países têm passado por recentes ondas de negacionismo. O Terraplanismo – ou a  crença na Terra plana – é apenas um exemplo extremo, pitoresco e risível (se for possível rir) de um processo muito mais complexo que busca desconstruir conceitos e instituições criadas a partir do Século XVIII, e que tem colocado em risco a forma como as sociedades ocidentais construíram seu modelo de vida contemporâneo, predominantemente baseado na República e na Democracia. Desconstruir e deslegitimar a ciência, a imprensa, a política e as instituições de ensino são requisitos necessários para que possamos aceitar aquilo que hoje chamamos com naturalidade de Pós Verdade, e que de fato na maioria das vezes não passa apenas de mentira, ignorância ou má fé. Negar a realidade dos fatos concretos passou a ser a matéria prima usada na construção dessas novas paredes de palha, que como qualquer criança sabe ao lembrar a história dos 3 porquinhos, não resistem ao mais leve sopro da verdade.

Como futebol, política e sociedade são absolutamente indissociáveis, o negacionismo também pode ser encontrado no mundo da bola. E no caso do futebol brasileiro, parece que em muitos aspectos desconstruir algo também passou a ser a nossa grande estratégia. Se o terraplanismo passou a influenciar negativamente setores estratégicos da nossa sociedade, o bolaplanismo também consegue ser encontrado dentre os mais diversos atores do nosso futebol, visto que parecem pensar e agir em permanente estado de negação.

Nos mercados mais desenvolvidos, competitivos e rentáveis, o futebol é tratado cada vez mais como um negócio, e como tal há um movimento claro e irreversível pela sua qualificação como produto. Tudo o que se faz gira em torno de 2 grandes pilares: melhorar a qualidade do produto e potencializar a experiência de consumo dos torcedores. Como consequência, o que vemos hoje são ações que buscam aumentar o conforto e a segurança de quem vai aos estádios, diminuir a quantidade de faltas e interrupções desnecessárias ao longo das partidas, aumentar a qualidade técnica das equipes a partir de uma melhor formação dos atletas, compatibilizar e unificar os calendários das mais diversas competições e associar os clubes aos movimentos sociais que buscam a consolidação da cidadania através de um modelo de sociedade mais justo, equilibrado e inclusivo. A bola é ainda mais redonda quando o futebol entende seu papel esportivo, político, econômico e social.

Por aqui, o negacionismo tem colocado nosso futebol na “vanguarda do atraso”. Acreditar no bolaplanismo nos faz conviver com um futebol primitivo, construído sob conceitos cada vez menos aceitos pelos grandes clubes e competições mundiais, nos mantendo cada vez mais irrelevantes do ponto de vista internacional. Aceitamos e normalizamos a violência que nos trouxe a torcida única; as brigas infantis, inexplicáveis e anacrônicas em jogos clássicos ou finais de campeonatos; técnicos que desrespeitam torcidas e jogadores ao usar palavrões no lugar de orientações precisas; as desonestas, ridículas e patéticas simulações de faltas por parte dos jogadores; um calendário que sobrecarrega os elencos e tira os grandes astros dos principais jogos; e clubes cada vez mais endividados e isolados, alienados do seu papel social e incapazes de encontrar soluções conjuntas que possam melhorar a vida das suas comunidades, bem como aumentar as receitas de todos os envolvidos e a qualidade final do nosso produto.

O bolaplanismo está presente quando defendemos que “final não se joga, final se ganha”; quando achamos normal termos em média 28 faltas e menos de 55 minutos jogados por partida; quando nossos times chegam a fazer 78 jogos por temporada, contra uma média de 58 dos times europeus; ou pior ainda, quando não entendemos a simbologia do que representa abrir os portões dos nossos estádios – mesmo que vazios –  para receber uma desnecessária Copa América no auge de uma epidemia que já nos levou mais de 460.000 vidas, e que continua mantendo médias de mortes diárias assustadoras e inaceitáveis.

Cada um de nós tem direito a ter suas próprias opiniões sobre qualquer assunto, desde que esteja disposto a arcar com as consequências dessas crenças. O que não podemos fazer é inventar nossos próprios fatos. Negar a realidade não constrói outra realidade, apenas nos torna incapazes de lidar com ela. É verdade que às vezes é preciso piorar uma situação para que ela possa ser resolvida. Tem problema que a gente só resolve quando piora … Mas mesmo nessas circunstâncias, o primeiro passo para resolver qualquer questão é reconhecer que ela existe. Viver em negação não apenas não resolve os nossos conflitos como na grande maioria das vezes os torna ainda maiores. E assim, nosso tão maltratado futebol – patrimônio cultural, esportivo, econômico e social da nossa história – só poderá se reinventar quando os bolaplanistas finalmente se convencerem que a Bola – assim como a Terra – é redonda.

Bolas e Planetas não são planos. São corpos celestes que giram em torno de estrelas, atraídos por seu brilho e por sua irresistível força gravitacional. Se por aqui vamos continuar a acreditar que a bola é plana, então o mais adequado é voltarmos a jogar Futebol de Botão. Recomendo a todos que busquem nos seus armários e gavetas aquela caixinha de madeira onde guardávamos nossos times e sonhos na infância. No mínimo, os jogos serão mais divertidos.

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Tom Assmar tem graduação e mestrado em Administração, e atua há mais de 25 anos com gestão, planejamento e finanças. Acredita que o futuro do nosso futebol passa necessariamente pela formatação de um produto que atenda aos interesses coletivos e pela qualificação da gestão dos clubes. É sócio do Futebol S/A.

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