CBF, da origem ao caos – Parte 3

Por Marcelo Azevedo

Quando finalmente a CBD, por meio do seu presidente Heleno Nunes, faz em 1979 o movimento de desmembramento de suas diversas federações esportivas filiadas, já estava claro que uma das prioridades era fazer nascer dali a entidade que deveria comandar o futebol brasileiro, reconstruindo finalmente para aqueles que desde o início do século brigavam por tal determinação.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) nasce para cuidar da agenda exclusiva do futebol nacional, acomodando tanto os interesses dos clubes, como das federações estaduais e, não menos importante, da seleção brasileira. Em paralelo, iniciava-se no futebol, em alinhamento às pressões sociais que aos poucos ganhavam corpo, um processo de abertura política. Também lenta e gradual.

O primeiro presidente a assumi-la é Giulite Coutinho, que faz uma gestão marcada por altos e baixos esportivos, de um lado pela volta do brilho em campo da seleção de 1982, mas por outro por uma preparação caótica para a Copa de 1986. Ainda que tenha sido reconhecido como um bom gestor, responsável por importantes avanços no planejamento do nosso futebol, Giulite não conseguiu criar um ambiente favorável à manutenção do seu grupo político, de tal forma que havia evidentes dificuldades para o processo sucessório, notadamente por conta de a eleição acontecer via um colégio eleitoral formado unicamente pelas federações estaduais.

É justo neste cenário que a velha oposição entre Rio de Janeiro e São Paulo parecia enfim ter terminado quando a chapa formada por Octávio Pinto Guimarães, ex-presidente da Federação do Rio, e Nabi Abi Chedid, ex-presidente da Federação Paulista, foi formada para concorrer juntos à presidência da CBF, em oposição a Medrado Dias, candidato apoiado por Giulite Coutinho.

Mas como nada que começa errado pode acabar certo, esta união não duraria muito tempo. A chapa que uniu cariocas e paulistas venceu essas acirradas eleições com uma artimanha típica do pior malandrismo futeboleiro. O estatuto da CBF previa, em caso de empate, a posse do candidato mais velho, no caso, Medrado Dias, então Nabi e Octávio inverteram a ordem da chapa horas antes da votação. Quem era vice, virou presidente, e quem era presidente, virou vice.

Na prática, as duas federações que se opunham em busca deste poder de forma quase centenária, haviam acabado por conquistá-lo em união.

União?

Sim, mas não por muito tempo, já que o “presidente” Nabi não desejava ser vice. A dupla que havia se candidatado às eleições como Nabi+Octávio, se elegeu como Octávio+Nabi e chegou ao poder como OctávioXNabi. Mais uma vez a cisão volta a comandar os destinos do nosso futebol, mais uma vez o poder dos dirigentes ligados ao futebol do Rio e de São Paulo estão à frente deste processo que parece não chegar nunca ao fim.

Os anos da gestão de Octávio foram tão desastrosos, que não poderia haver um cenário mais favorável para que João Havelange, que havia dado apoio o candidato derrotado de Giulite Coutinho, planejasse sua volta ao jogo, agora trazendo para dentro do campo o seu genro, Ricardo Teixeira, alguém absolutamente estranho ao mundo do futebol, mas sob o qual já se ouvia falar nos bastidores do poder desde a Copa de 86 no México, quando ele começou a trabalhar politicamente pela sua indicação.

E é justamente a eleição de Ricardo Teixeira que muda para sempre a formatação política e institucional da CBF, instaurando um modelo de poder abertamente lastreado em concessões políticas e benesses que buscavam agradar mais seus eleitores que a estrutura do futebol. O processo que se inicia em 1989, traz ecos profundos até os dias atuais, a partir de elos que não podem ser dissociados do que estamos presenciando.

Havia prometido encerrar a sequência que tratei da origem da CBF, mas os fatos têm se alterado de tal maneira e com tanta velocidade, que deixarei para um último texto o período que vai de Ricardo Teixeira até Rogério Caboclo. São as intervenções deste período que constroem o que está sendo vivido hoje.

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Marcelo Azevedo é formado em Administração de Empresas com MBA em Gestão de Negócios. Publicitário por adoção, atua há mais de 30 anos liderando áreas de gestão e finanças. É convicto da força que o ecossistema do futebol pode produzir ao seu entorno.  Torcedor raiz, é um amante do jogo bem jogado, da boa disputa, mas gostar, gostar mesmo, ele gosta é do Botafogo, até mais do que do futebol. É sócio do Futebol S/A.

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