CBF, da origem ao caos – Parte 4

Por Marcelo Azevedo

Chegamos então ao fim desta sequência de textos sobre a CBF que buscou explicar como a cisão pelo poder sempre foi a marca que estruturou os rumos do nosso futebol.

Na primeira coluna desta série CBF, da origem ao caos – (leia aqui) explicamos como e em torno de quem o poder estrutural do nosso futebol se unificou para criar a primeira entidade nacional que organizaria o esporte nacional. Já na segunda coluna (leia aqui) explicamos porque a criação da CBD malmente conseguiu pacificar o conjunto de interesses que estavam em campo, expondo como a presença do estado contribui para bagunçar de vez a dança das cadeiras sobre quem deveria comandar o nosso futebol.  Por fim, na última coluna publicada por mim aqui no espaço do Futebol SA  (leia aqui) fizemos o caminho da transição entre a CBD e a CBF, a entidade que nasce para cuidar da agenda exclusiva do futebol nacional, acomodando tanto os interesses dos clubes, como das federações estaduais e, não menos importante, da seleção brasileira de futebol.

Desde meados do ano de 1986 que já se percebia a presença de Ricardo Teixeira nos bastidores do futebol, mas foi durante a Copa do México, também naquele mesmo ano, que João Havelange, seu sogro e Presidente da FIFA, fez valer seu poder e influência para distribuir vantagens e mimos a dirigentes de clubes e de federações estaduais para ancorar seu discurso de profissionalismo.

Uma rápida pausa para constatar que não é coincidência este modelo cartorial até hoje ditar os rumos do comando das federações estaduais e, é óbvio, também da Confederação Brasileira de Futebol? Vem desde lá esse clientelismo eleitoral que age arrebanhando votos que sustentam o poder de gente que tem tão pouco apreço pelo futebol. E por isso que não é incomum identificarmos tantos dirigentes que demonstram sequer conhecer a história dos clubes que afirmam torcer. Desarmar esta lógica é uma necessidade imediata do futebol brasileiro, onde enxergo que somente um ator poderá fazê-lo: os nossos clubes.

Voltemos então a Ricardo Teixeira.

Eleito em 1989 por aclamação por todas as federações estaduais, ele ficou no poder durante inacreditáveis 23 anos, respaldado por 2 títulos mundiais da FIFA para os quais sua presença teve a mesma importância que a de uma uva passa no arroz.

Voo da muamba” em 1994, CPI do congresso em 2000, não foram poucas as vezes que teve seu cargo questionado e alvo de severas críticas. Mas mesmo com tudo isso, o dirigente conseguiu renascer em 2007 ao participar de todas as negociações que fizeram o país se tornar sede do Mundial da Fifa de 2014. Não apenas da escolha do Brasil, mas de todas as subsedes que foram escolhidas para sediar os jogos durante a Copa do Mundo. Era a época do reinado de Ricardo Teixeira.

O controle máximo havia chegado às suas mãos de tal forma que ele agia como um imperador diante do poder acumulado. O resumo desse sentimento de onipotência está na famosa entrevista que ele dá à jornalista Daniela Pinheiro, da Revista Piauí – “Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”.

Só que os escândalos da FIFA chegaram nele após a operação que prendeu uma parte da cúpula da entidade mundial e dirigentes de diversas confederações nacionais e continentais. Só não está preso hoje porque o Brasil não extradita seus cidadãos. A Fifa, mesmo com bastante demora, anunciou finalmente em 2019 o banimento dele de qualquer atividade ligada ao futebol em função da investigação da entidade que apontou o recebimento de R$32 milhões em propinas em contratos da Libertadores, Copa América e Copa do Brasil. Acordos milionários, justamente uma das marcas que ele mais se vangloriava de sua gestão, foi, ironicamente, a razão principal de sua queda.

As seguidas eleições que fizeram o poder passar das mãos de José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Antonio Carlos Nunes de Lima até chegar às mãos de Rogério Caboclo apenas reafirmaram o modelo eleitoral que sucessivamente beneficiou dirigentes em detrimento da estrutura do futebol. Todos estavam direta ou indiretamente ligados a Ricardo Teixeira e somente chegaram à presidência da entidade porque sustentam a mesma prática eleitoral.

Os Clubes hoje já votam para eleger o presidente da CBF, mas o peso do seu voto ainda é incapaz de fazê-los sozinhos determinar o vencedor. Uma posição incompreensivelmente humilhantemente, numa absurda manobra que visa unicamente proteger o poder de quem há mais de um século comanda os destinos do nosso futebol.

Como a CBF vive uma luta pelo seu poder, com Caboclo tentando retomar o comando da entidade a qualquer custo, numa prévia do que virá a acontecer nas eleições de 2022, cabe aqui trazer a coluna de Andrei Kampff que lembra que desde 2016 o estatuto da Conmebol determina que todos os candidatos a cargos executivos das federações nacionais devem passar por uma checagem de idoneidade interna, mas também por uma avaliação da Subcomissão de Controle da Comissão de Governança e Transparência da entidade sul americana.

Temos candidaturas postas capazes de fazer frente a tal checagem? Receio, dramaticamente, que não.

A pergunta que nos resta fazer é se conseguirá, enfim, o futebol brasileiro mudar a sina que o persegue desde que a Federação Brasileira de Sports foi criada para centralizar a gestão do esporte brasileiro?

Saberão a CBF e os clubes dialogarem em busca de uma solução de coalizão de interesses?

Muitas perguntas ainda sem resposta, mas uma torcida enorme de que enfim o caos seja substituído por uma governança ética, colaborativa e producente de um ecossistema valoroso para o futebol brasileiro.

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Marcelo Azevedo é formado em Administração de Empresas com MBA em Gestão de Negócios. Publicitário por adoção, atua há mais de 30 anos liderando áreas de gestão e finanças. É convicto da força que o ecossistema do futebol pode produzir ao seu entorno.  Torcedor raiz, é um amante do jogo bem jogado, da boa disputa, mas gostar, gostar mesmo, ele gosta é do Botafogo, até mais do que do futebol. É sócio do Futebol S/A

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