Como os (clubes) gigantes caem

Por Renato Gueudeville

O americano Jim Collin é um dos gurus da administração e possui algumas obras que são muito relevantes no entendimento das dinâmicas das organizações. Uma delas é How the might fall, traduzido no Brasil para Como as gigantes caem. O título do artigo nada mais é do que uma provocação atrelada.

Neste livro, o autor nos propõe uma série de reflexões sobre o que leva a uma empresa ao caminho da decadência. Embora nós estejamos mais acostumados a prestar atenção quando as bombas estouram, é no silêncio que elas são montadas. Aliás, algumas são armadas em pleno sucesso de mercado.

Ao estudar o comportamento das lideranças e as estratégias organizacionais de grandes corporações que naufragaram, o autor mapeou algumas etapas que formaram uma espécie de padrão nessas empresas.

Ele estratificou em cinco fases de declínio de uma companhia, retratada no gráfico abaixo.

E por que no futebol seria diferente?

  1. Excesso de confiança gerado pelo sucesso

O autor menciona o quanto o sucesso cega os CEO’s das empresas. Sucesso que leva a autoconfiança descalibrada, com pitadas de vaidade em líderes mal preparados. Vanity, definitily my favourite sin. Impossível não lembrar a última frase do impecável filme o “Advogado do Diabo” dita por John Milton (Al Pacino) ao jovem advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves) que, mais uma vez, se rende às glórias e encantos do sucesso de mais uma vitória nos tribunais.

A Motorolla ficou durante anos se apoiando na tecnologia analógica do StarTac. Nokia, Sony Ericsson, Blackberry faziam companhia e dominavam todo o mercado crescente de celulares no mundo.  Até que uma marca conhecida por sua linha de produtos de computadores e notebooks lançar um celular, em 2007, sem teclado físico, com o zoom pinçado pelos dedos onde você poderia ter telefone, ipod e link com internet em um só aparelho. O Iphone veio, a Apple fez história e quem ficou do bloco inicial mencionado virou mero coadjuvante. Os demais? Sumiram.

O São Paulo foi o clube mais vitorioso das décadas de 90 e 2000. Títulos nacionais, domínio sul-americano e mais 3 títulos mundiais contra Barcelona, Milan e Liverpool. Foi o clube mais organizado do país, com toda a estrutura de primeiro mundo e modelo de gestão fora das quatro linhas. “Não tem como esse time não continuar soberano por décadas”, pensou o seu torcedor. “Não há nenhum questionamento que o maior clube brasileiro nos próximos anos será, com sobras para o 2º colocado, o São Paulo”, pensou outro torcedor animado com o tri-campeonato brasileiro dos anos 2000.

  1. Busca indisciplinada pelo crescimento

Nessa etapa é onde toda a armadilha se forma. Como disse Tom Assmar, amigo de bancada do Futebol S/A, no nosso último programa (Os clubes que se perderam no caminho), um crescimento errado pode quebrar uma empresa. É mais fácil uma corporação morrer em função de querer capturar as diversas oportunidades de mercado do que aquela que sabe do seu tamanho e possibilidades e restringe seu crescimento.

No Brasil, qualquer um que nasceu de 1970 para cá já ouviu falar em Mesbla, Sandiz, Arapuã, Mappin. Verdadeiros gigantes nas suas épocas que negligenciaram os riscos que o crescimento desestruturado oferece.

No futebol, a busca indisciplinada por crescimento se traduz em um movimento: contratar para montar o melhor time possível para conquistar o máximo de títulos em um, dois, três ou quantos mandatos forem necessários.

Foi assim com o Cruzeiro. O clube que ganhou 2 Campeonatos Brasileiros em 2013 e 2014, além das Copas do Brasil de 2017 e 2018, já convivia com elenco inchado nessa época, com vínculos de contratos longos, alguns que datavam de 2012.

O resultado disso? Dívidas que dobraram de 2017 para 2019, conforme podemos notar no gráfico abaixo do Relatório Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol, do Itau BBA e de autoria de César Grafietti.

A busca indisciplinada do crescimento do clube trouxe títulos e uma herança ruim que culminou no rebaixamento da equipe mineira no brasileirão de 2019.

  1. Negação do risco

Nessa fase, os sintomas começam a aparecer, mas os resultados podem iludir e camuflar a real situação de uma empresa. E se os resultados começam a falhar a culpa é de todos: governo, mercado, o dólar, a recessão.

No futebol, normalmente os riscos começam a dar sinais todos os dias. É a folha de pagamento que é postergada, os impostos que são protelados, fornecedores que não vendem a prazo. Os sinais chegam pelo mundo real enquanto os clubes conseguem fazer malabarismos para tentar desempenho esportivo em meio ao caos se instalando.

Quando o Barcelona vai ao mercado e contrata: Dembelé (135 milhões de euros), Philipe Coutinho (145 milhões de euros) e Griezmann (120 milhões de euros), seus dirigentes não só negaram o risco financeiro que jogaram para dentro do clube, mas negligenciaram todas as variáveis possíveis de investimentos de vulto não darem certo. Um 8×2 para o Bayern em 2020 e a divulgação de incríveis 481 milhões de prejuízo no último exercício, dão o tom melancólico de um clube que alterna há alguns anos com o seu rival (Real Madri) como a maior receita de um clube de futebol no planeta.

Um problema dessa magnitude não começou agora. Esse vulcão já estava dando sinais e nos últimos anos com grande atividade. O que aconteceu agora é a erupção.

  1. Corrida pela salvação

Neste estágio, o autor menciona que as empresas sem pessoas preparadas e capazes de lidar com a forte deterioração do negócio perdem totalmente o controle do cenário. Aqui, bancos e fornecedores viram donos da organização.

A empresa busca pelos salvadores da pátria, pelas soluções mirabolantes que possam salvar o empreendimento. Não há mágica para problemas que levaram anos para se formar.

Nesse estágio se observa também uma melhora inicial seguida de diversas decepções. É aquele título estadual em cima do rival com mais qualidade e força econômica ou aquela campanha inesperadamente boa em um ano e trágica nos outros seguintes.

Nos clubes, as dívidas não pagas de diversas gestões viram ações que por sua vez resultarão em bloqueios judiciais, sufocando o combalido caixa. Aqui, a Justiça e agentes de futebol viram donos do negócio. O primeiro vai corrigir e tentar fazer com que credores recebam. O segundo, em alguns casos, vai aproveitar a fragilidade do sistema para emprestar o dinheiro da folha e colocar mais alguns jogadores do seu escritório.

  1. Irrelevância ou morte

Nada mais é do que um trágico fim quando já não há mais nada a ser feito. Todo o valor da empresa deteriorou, o mercado já levou seus bons profissionais e pouca coisa remete a uma organização nos padrões que conhecemos.

No futebol, a Portuguesa talvez seja o caso mais emblemático. Um clube que chegou a rivalizar com os grandes em São Paulo e conquistando o posto de 2ª torcida de muitos paulistanos, a Lusa esteve a 6 minutos – e mais alguns acréscimos – de ser campeã brasileira em 1996. Lusa que já teve Djalma Santos, Leivinha, Dener, Zé Roberto e que é o 11º clube brasileiro que mais forneceu jogadores para a seleção brasileira em Copas do Mundo.

O Santa Cruz que já foi 2 vezes quarto colocado do campeonato brasileiro, conquistou 29 campeonatos estaduais (20 deles na fase mais áurea desses campeonatos), que nos deu Rivaldo, Ricardo Rocha, Givanildo Oliveira, Grafite e tantos outros.

Empresas como Disney, IBM, Apple, Marvel viveram suas crises e foram passageiras dessa jornada dos estágios de declínio. Por aqui no Brasil, Magazine Luiza estava encaminhada entre o estágio 3 e 4 e, em 2015, fez uma profunda reestruturação dos seus negócios, tornando-a eficiente, lucrativa e inovadora. Hoje ela tem mais de 20% de market share e uma das maiores valorizações de um ativo na B3.

Não faltam exemplos de clubes que perderam o rumo nos últimos anos. Cruzeiro, Vasco, Botafogo, Sport, Vitória são clubes com grandes histórias, títulos e torcidas expressivas. Eles estão em momentos críticos e que precisam rapidamente dar respostar para saída do estágio 4. O começo da virada é encarar o problema com o foco necessário, se cercar de pessoas que sejam capazes de mudar o resultado do jogo que está acontecendo fora de campo, mecanismos de governança que garantam punições e exclusões de maus dirigentes e a busca incessante de engajamento das suas torcidas.

A boa notícia? Empresas têm clientes e clubes de futebol têm torcedores.  Nenhum cliente sofre se uma empresa que ele comprava determinado produto ou serviço quebrou.

Os relevantes clubes de futebol têm um patrimônio imenso, disposto a engajar ao menor sinal de que a chave pode ser virada.

A irrelevância é o mais perto que os clubes conseguem chegar da morte. É viver como um zumbi, mas desses inofensivos. São feios, mas não metem medo em mais ninguém.

Para clubes de futebol que sofreram durante anos nas mãos de dirigentes ruins, alguns incompetentes, outros de má-fé, estar vivo é a chance que precisam para acreditar em um futuro melhor.

Que suas torcidas continuem a sonhar e lutem para ter líderes que honram suas histórias. Qualquer coisa diferente disso será mais um zumbi andando por Atlanta.

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Renato Gueudeville é administrador de empresas com MBA em Finanças Corporativas, conselheiro consultivo, gestor com conhecimento em reestruturação empresarial com atuação pelas principais instituições financeiras do país. Acredita que no mundo da bola, fora da gestão não há salvação. É sócio do Futebol S/A.

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