Direito ao desporto, à paz e… à emoção

Por Alexandre Miguel Mestre

No dia 6 de abril, assinala-se o “Dia Internacional do Desporto ao serviço do Desenvolvimento e da Paz”, data importante tanto mais quando, como tantos referem, e com a latitude que a palavra o permite, vivemos em tempo de guerra.

Anualmente relembramos momentos, pessoas e frases históricas, marcantes, que não só evocam como demonstram, na prática, como o desporto pode servir para o desenvolvimento (sobretudo no pós-guerra) e para a paz (essencialmente na prevenção do belicismo). Hoje não podemos, não devemos escapar a essas memórias. Da Trégua Olímpica, espécie de cessar-fogo que remonta aos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Da ‘Ode Olímpica’ do Barão Pierre de Coubertin (“Ó desporto, tu és paz! Estabeleces relações felizes entre os Povos, aproximando-os no culto da força dominada”). Da ação de Nelson Mandela contra o Apartheid, por meio do desporto, na certeza de que “o desporto tem o poder de mudar o Mundo”. De papas, como Paulo VI, João Paulo II ou Francisco, a enfatizar o quão o desporto é fator de paz universal. De partidas entre Israel e Palestina. Da reconstrução e desenvolvimento de povos, cidades e países, após guerras e outras catástrofes. De como se tem ajudado a integrar refugiados por via da linguagem universal do desporto. E por aí fora.

Em face da atualidade, julgo pertinente focar o impacte negativo, também para a paz, de inevitáveis suspensões ou cancelamentos de competições desportivas, em razão da Covid-19. A falta que o desporto nos faz. Direitos em suspenso.

Adiamos os Jogos Olímpicos (que simbolizam, nos cinco anéis, a união dos cinco continentes) e a Euro 2020 (a decorrer em 13 cidades da Europa, no lema “pontes que unem anfitriões”). Não adiamos apenas megaeventos desportivos. Adiamos relações e união entre povos, que proporcionam o acolhimento e a vizinhança, que geram o conhecimento e inerente mitigar de estereótipos e preconceitos perante certas nacionalidades. Adiamos momentos ímpares de coabitação, universalismo, igualitarismo, festa. Ficam para depois imagens épicas de atletas ou espetadores em harmonia, juntos como não se juntam muitos dos seus governantes. Fechamos fronteiras, que o desporto (Acórdão Bosman) também ajudou a abrir. Adiámos a paz.

Claro que nessas ocasiões também se revelam flagelos como violência, corrupção e dopagem, ao arrepio da ética desportiva. Assim como teimam em existir racismo, xenofobia, homofobia, entre outras formas de discriminação social. Mas também aí o desporto, vitrina mundial, alerta consciências, fomenta soluções para a humanidade. Pela paz (social).

Adiamos ainda, mundo fora, competições nacionais de diferentes modalidades e escalões. Crianças e jovens que não jogam, profissionais a não exercer plenamente o seu trabalho. Espetadores que não se juntam, não se abraçam. Restrições ou impedimentos ao direito ao desporto. Afrontas ao “direito à emoção”, a que alude Luc Gonin, enquanto “direito de todos e cada um, numa sociedade marcada pelo culto do presente, de aceder regularmente, fisicamente ou pelos media, a manifestações culturais e desportivas, e de se emocionar com elas.

Esperemos. Lutemos, cidadãos, profissionais da saúde e decisores, novamente guiados por Coubertin: “Ver longe, falar franco e agir firme”.

Alexandre Miguel Mestre é advogado, docente universitário, ex-secretário de Estado do Desporto.

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