Enroladinho Gaúcho

“Enroladinho” é um aperitivo típico brasileiro, assim denominado por ser constituído de uma massa que se coloca em volta de uma salsicha. Embora seja mais comum no Ceará, ele se tornou apreciado nacionalmente, sendo reverenciado até na distante terra gaúcha, onde passou a fazer parte de seu famoso café colonial.

Apesar da salsicha ser o ingrediente mais comum, esta iguaria é extremamente versátil, podendo ter recheio de queijo, presunto, frango ou qualquer outra proteína que se prefira.

O delicioso petisco inspirou um termo popular para caracterizar quem está envolto em problemas com o Poder judiciário: Enrolado com a justiça. Tal situação parece ser a de Ronaldinho Gaúcho, que ultimamente vem estampando as manchetes dos jornais por assuntos nada esportivos.

Chama a atenção a diversidade dos problemas judiciais de Ronaldinho, tão versáteis como o enroladinho. Ronaldinho está enrolado em variados ramos do direito: direito financeiro, ambiental e agora no Paraguai, de ordem penal.

Na seara ambiental, ele foi condenado por construir ilegalmente em Área de Preservação Permanente. As multas aplicadas já atingiram o valor de R$ 8,5 milhões e por não terem sido pagas, resultaram na apreensão de seu passaporte até que sejam quitadas.

No mundo financeiro, Ronaldinho tornou-se réu numa ação civil coletiva que pede R$ 300 milhões de indenização, por danos supostamente causados pela empresa 18kRonaldinho a seus investidores.

E agora, na área penal, veio à tona a prisão por uso de documentos falsos ao entrar no Paraguai.

Partindo-se do pressuposto que o ex-craque esteja de boa-fé, parece que ele está muito mal assistido. Aliás, a sua situação é apenas uma amostra de um problema comum aos jogadores brasileiros: a falta de assessoramento técnico adequado.

Com efeito, circundados por uma massa de pessoas despreparadas ou sem boas intenções, muitos atletas viram seus problemas tributários, patrimoniais, trabalhistas, familiares etc., explodirem em virtude de má gestão da sua vida pessoal e profissional.

A propósito, todos os problemas de Ronaldinho mencionados acima teriam sido evitados se ele tivesse buscado a ajuda de especialistas.

Com relação à questão ambiental, bastaria ter contactado um advogado. Este certamente teria submetido o projeto de construção ao governo para aprovação, antes que se iniciasse a obra.

No tocante aos danos financeiros, caso Ronaldinho não tenha atuado como mero garoto-propaganda, mas participado efetivamente da gestão do empreendimento, ele deveria antes ter consultado alguma empresa do ramo de due diligence, (diligência prévia), que faria um levantamento dos riscos existentes e teria orientado o atleta sobre qual caminho a seguir.

Por fim, quanto ao episódio dos documentos falsos, por que não contratar uma empresa despachante especializada na obtenção de nacionalidade estrangeira?

Chega-se portanto ao “X” da questão. Pessoas que contratem serviços especializados para atender suas necessidades, criam para si a presunção de boa-fé nos negócios em que se envolvem e se beneficiam de várias prerrogativas legais.

Em contrapartida, quem se vale de pessoal sem expertise necessária, está assumindo o risco de sua empreitada e arcando com os eventuais danos dela decorrentes, presumindo-se culpado por erro na escolha, denominada pela doutrina de culpa in eligendo.

A culpa in eligendo, é, portanto, como conceitua Levenhagem, “aquela proveniente da má escolha de um representante ou preposto, como, por exemplo, a pessoa admitir ou manter a seu serviço um empregado sem as aptidões necessárias ao trabalho que lhe é confiado”.

Embora seja sedutora a assistência dos “amigos”, com soluções simples e fáceis, é sempre bom evitá-la, vez que o resultado lá na frente poderá trazer prejuízos incalculáveis ao patrimônio e à imagem do atleta. Ronaldinho que o diga…

Da mesma forma os enroladinhos. Ainda que sejam saborosos, baratos e possam ser preparados rapidamente, eles não deveriam ser consumidos. Possuem muito sódio, gordura vegetal hidrogenada e outras substâncias que podem provocar diversos males à saúde.

Grandes astros do esporte precisam ter sua vida pública gerenciada como se fossem grandes empresas. Todavia, a maioria dos atletas aceita a gestão de seus interesses da forma mais amadora e incompetente possível.

Há inúmeras receitas de enroladinho. Nenhuma delas, porém, é capaz de fazer bem ao corpo humano. Por outro lado, existe uma receita que seguramente tem condições de evitar danos irreparáveis à saúde financeira e jurídica do atleta:

Cercar-se de pessoas competentes.

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