Fake news, informação mal apurada ou normalidade?

Por Rogério Tavares

Reviravolta no “Caso Cruzeiro”. O título desse artigo poderia ser esse também. O motivo me parece claro. O que começou como um sonho pode terminar em pesadelo.

Imediatamente, a tendência do ser humano é já procurar um culpado. Porém nessa história, creio que de tão complexa, cada envolvido que admita sua própria responsabilidade.

Temos a administração do Cruzeiro, representada por seu presidente, o ex-jogador Ronaldo como investidor, a empresa XP que objetivamente falando fez a ligação das partes para o negócio, os conselheiros do clube, a torcida e a imprensa.

Antes dos fatos, faço um alerta. Vamos direcionar nossa luz aqui para o próprio umbigo, pois além de advogado, sou jornalista.

Há três meses, a notícia era: “Ronaldo compra 90% da SAF Cruzeiro por cerca de 400 milhões de reais”.

Diante do cenário catastrófico nas contas do clube, a aprovação do negócio foi praticamente unânime. E convenhamos, com exceção do momento da dispensa do goleiro Fábio, a maioria aplaudia e reconhecia na transação uma ótima oportunidade para todos.

Mas tinha uma pedra no meio desse caminho, com o devido respeito ao poeta atleticano Carlos Drummond de Andrade pelo uso da expressão. Aliás, não se tratava de uma pedra, mas sim de uma ponte sem um pedaço. Explico.

Para ligar o novo investidor ao clube era preciso 400 milhões de reais. Dinheiro que seria colocado aos poucos na reestruturação do Cruzeiro.

90 dias depois, somos surpreendidos pelas informações de que o “negócio não é bem assim”.

Oi?

É assim, como, então?

O investidor tem “cinquentão” pra dar agora.

E o resto?

O restante, já dentro da empresa Cruzeiro, a gestão faz dinheiro e vai se pagando.

E se não fizer mais dinheiro do que fazia antes?

Aí o gestor pode devolver o que comprou. Mas não tem obrigação de dar aqueles 350 milhões.

Para tudo!

Estamos falando daquela transação de 90 dias atrás?

Sim. Aquela mesma. No entanto, agora, todos têm em mãos o contrato que estava sob confidencialidade, mas que foi aberto ao público.

Dito isso, voltemos ao título do artigo. Fake News, apuração ruim ou normalidade?

Vamos combinar que falávamos de um negócio que era muito diferente da realidade.

Como que nós jornalistas publicamos algo sem ao menos checar. Certamente, a classe indignada comigo vai dizer. “Como sem checar? Tínhamos a palavra dos dois lados. Comprador e vendedor.”

Por isso, apontar o dedo, aqui, não é o ideal. O mais importante é a reflexão.

Estávamos diante de uma Fake News? Até porque o anunciado não correspondia com o contrato real. E veja que não estamos falando de meros detalhes de uma negociação que, obviamente, podem ser confidenciais.

Não há como fugir do fato de a notícia ter sido lançada, da forma que foi, com a clara intenção de causar a devida comoção positiva entre torcedores, imprensa e público em geral.

Não vou ficar em cima do muro. Para mim, não é Fake News. Simplesmente porque quem a publicou não sabia exatamente do que se tratava. (Quem a publicou, não quem a inventou.) Quando a história da compra e venda foi criada, seja lá por quem tiver sido, a informação ainda não era uma notícia.

A partir do momento que o primeiro órgão a publica, ela se torna uma notícia. Mas até então, naquele momento, ninguém, a não ser os envolvidos no negócio, sabia dos meandros nebulosos.

Que fique claro. Não há crime aqui. Quem vende, tem autorização para isso. Quem compra, só quer fazer um bom negócio. Da boca de Ronaldo não saiu nenhuma informação irreal. No entanto, intencionalmente ou não, da XP saíram mais do que detalhes que não são exatamente o que está no contrato. E nesse momento o negócio ganha outras proporções.

Ok, então se o cenário mudou que culpa temos, nós, da imprensa, que fomos quase que enganados nessa história?

Com o devido respeito e me colocando junto ao grupo dos criticados, em qual momento pedimos para ver esse contrato? Quem pediu e ouviu que era confidencial, em que momento indagou sobre uma SAF, ser vendida sob a tutela de um contrato confidencial? Achamos natural isso? Nossa responsabilidade não é apurar e informar o torcedor, o sócio do Cruzeiro, da melhor forma?

É, mas tínhamos os dois lados da história.

O problema foi que não pensamos à fundo, para lembrarmos que essa história tinha mais de dois lados.

Aí que entra o momento da reflexão.

Na minha opinião, houve sim um erro. Apuração ruim. Informações desencontradas divulgadas durante 3 meses. E porque fomos induzidos. Colocamos o trabalho no automático. Fulano falou, Beltrano confirmou. Virou verdade.

Precisou parte do Conselho do clube, vir a público, quebrar a absurda cláusula de confidencialidade para entendermos melhor o que estava acontecendo.

O futebol brasileiro passa por um momento de transição. As transformações das associações em SAF são negócios novos. A lei está fresquinha. Tropeços vão acontecer. Estamos diante de um novo mundo. Por isso é que o fundamental é refletirmos mais e melhor, daqui para frente. Estudar sempre. Buscar fontes diferentes e confiáveis.

Bons profissionais, seja do direito ou do jornalismo, precisam pensar “fora da caixa”. E para que não passemos a servir interesses de partes nos negócios, fiquemos atentos.

Dessa vez foi um grande tropeço. Entretanto, todo cuidado é fundamental. O erro jornalístico anda muito perto da Fake News.

Crédito imagem: Cruzeiro

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