Frieza

A diretoria do Flamengo recorreu da decisão que fixou uma pensão para os parentes dos meninos que morreram no Ninho do Urubu. A “fortuna” que havia sido estipulada foi de R$10.000,00 (dez mil reais) para cada família.

Em grau de recurso, o clube obteve vitória parcial, ao conseguir reduzir o valor para cinco salários mínimos, equivalente a R$5.225,00 (cinco mil duzentos e vinte e cinco reais).

O que mais impressiona é, depois de tudo o que aconteceu, o clube brigar na justiça para não pagar R$10.000,00 (dez mil reais) !!!, para cada família, sendo que a soma de todos esses pagamentos não custa nem a metade do montante que um jogador mediano do time recebe por mês…

O clube da Gávea alegou que o “juízo desconsiderou ter o Flamengo já firmado acordo com algumas da famílias das vítimas, que deram quitação ao clube, bem como que, voluntariamente, em relação àquelas vítimas ou familiares que ainda não firmaram acordo com o Flamengo, este já adianta mensalmente o montante de R$ 5 mil”.

Além disso, argumentou que os R$ 5 mil são “bastante superior ao que os atletas recebiam como ajuda de custo, ou seja, R$ 300,00 e ao que poderiam prover aos seus pais à época”.

É preciso ter muito sangue-frio para comparar o valor da ajuda de custo que era pago aos garotos, com o que está sendo desembolsado atualmente à família das vitimas. A questão não se resume à gélida equação de correlacionar valores, mas de fazer um gesto de respeito aos parentes, aceitando pelo menos o valor arbitrado pelo juiz de primeira instância e que o clube voluntariamente não havia aceitado pagar.

 Isso era o mínimo que o Flamengo deveria fazer. Aliás, convenhamos, desembolsar dez mil reais de pensão não é nenhum valor estratosférico que a entidade não possa arcar. Recusar-se a pagar essa quantia tão reduzida para os cofres do clube mostra o quão insensível seus dirigentes se revelaram ao longo do tempo com a tragédia e a dor das famílias.

Porém, tenho certeza que a esmagadora maioria de sua gigantesca torcida não pensa da mesma maneira, pois já vimos, como o calor humano dos torcedores manifestado com a tragédia contrastou e muito, com a frieza e indiferença apresentada por seus dirigentes.

 Não se esqueça de que o responsável pelas mortes daqueles meninos foi o Flamengo e que essas vidas que se perderam tão cedo não tem preço. A vitória obtida na justiça, sim, possui um preço muito mais alto do que a “economia” que se conseguiu: o preço da reprovação social por uma atitude tão tacanha.

Tem certas coisas que o Direito não resolve. Se juridicamente o pleito se sustentou, tanto que foi exitoso em segundo grau de jurisdição, ele não resiste a qualquer análise metajurídica do caso. A questão vai muito além do que é discutido nos autos de um frigido processo. Ela envolve postura, humanidade, consideração, carinho e respeito pelos familiares.

Todavia, não devemos esperar outra vez por tudo isso.

Só nos resta aguardar por mais insensibilidade, distanciamento e frieza.

Muita frieza.

Compartilhe

Share on whatsapp
Share on telegram
Share on twitter
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email

Últimas Notícias

Colunas

Seções

Assine nossa newsletter

Toda sexta você receberá no seu e-mail os destaques da semana e as novidades do mundo do direito esportivo.