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Imprevisibilidade, armas e erros de milhões de dólares

A atual temporada da NBA se aproxima do final. Mas, em meio às disputas que definirão quem lutará pelo título, entre Boston Celtics e Miami Heat, na Conferência Leste, e Los Angeles Lakers e Denver Nuggets, na Conferência Oeste, a semana ficará marcada pela definição da ordem das escolhas do Draft.

No processo de recrutamento dos atletas, dentre universitários, estrangeiros e jogadores provenientes de outras ligas que se inscreveram para ter a chance de atuar no “melhor basquete do mundo”, o grande vencedor foi o San Antonio Spurs, uma das franquias que escolheu “perder para ganhar”, tema já abordado por aqui.

O prêmio para o Spurs será a chance de selecionar o fenômeno francês Victor Wembanyama, que vem gerando as maiores expectativas possíveis desde que entrou no radar das equipes da NBA.

Estará Wembanyama destinado a ser, em poucos anos, o novo “rosto da liga”? A lógica indica que sim, mas é impossível fazer previsões realmente seguras.

Quem acompanha esportes sabe que a imprevisibilidade é um dos ingredientes que faz com que as pessoas ainda estejam dispostas a “parar” suas vidas e a pagar caro para assistir eventos ao vivo.

Quer um exemplo de algo imprevisível?

Antes do início desta temporada, muitos apostariam que o novo rosto da liga, especialmente após as aposentadorias de LeBron James e Stephen Curry, seria Ja Morant, estrela do Memphis Grizzlies.

Além de produzir highlights em profusão, Morant teria a vantagem de ser um jovem norte-americano em uma liga cada vez mais estrangeira, que já se curvou ao talento excepcional do esloveno Luka Dončić e cujos últimos prêmios de melhor jogador da temporada foram para os estrangeiros Giannis Antetokounmpo (grego, cuja família tem origem na Nigéria), Nikola Jokić (sérvio) e Joel Embiid (camaronês, que se habilitou para atuar pela seleção francesa de basquete).

De fato, todos os ventos sopravam em favor de Ja Morant e de seu carisma explosivo.

Dentro das quadras, além de ter sido a segunda escolha geral do Draft de 2019, o jogador recebeu, em sua primeira temporada, o prêmio de melhor calouro do ano, tendo sido premiado, na campanha seguinte, como o atleta que mais evoluiu na NBA.

Fora das quadras, Morant foi contratado como garoto propaganda do isotônico Powerade e viu a Nike lançar uma linha de tênis com o seu nome.

Porém, as polêmicas escalaram e chegaram bem mais alto do que os incríveis saltos que Ja Morant é capaz de executar em direção à cesta.

Os últimos episódios envolvendo o jogador de 23 anos abalaram a relação com patrocinadores e representaram tudo aquilo que a NBA não gostaria de ver associado à sua valiosíssima marca.

Investigado pela liga por estar envolvido em uma suposta ameaça a jogadores e membros da comissão técnica do Indiana Pacers, o atleta foi suspenso no último mês de março por aparecer em um vídeo no qual portava uma arma de fogo dentro de uma boate.

Aos poucos, Ja Morant, que também havia sido acusado de ter agredido e ameaçado um adolescente, deixou de ser o “queridinho” da NBA para se tornar objeto de censura pública pelo comissário da liga, que declarou estar chocado e desapontado depois que o atleta, mais uma vez, apareceu ao vivo em um vídeo portando arma de fogo.

Além de uma nova suspensão que, especula-se, deve ser bem longa, nos moldes daquela aplicada a Gilbert Arenas pela NBA em 2010, as manchetes negativas têm custado muito dinheiro a Ja Morant.

Com a imagem desgastada, o jogador ficou de fora da seleção dos times ideais da temporada, algo que parecia impensável há alguns meses. Com isso, ele deixará de receber, em uma próxima extensão contratual, US$ 39 milhões.

Após o incidente de março, a Powerade já retirara do ar uma campanha centrada no atleta. Agora foi a vez da Nike, que excluiu de suas prateleiras virtuais o tênis da linha Ja Morant.

Há quem esteja se perguntando: mas o jogador cometeu algum crime por portar a arma ou mesmo por exibi-la em vídeos? É possível que não, desde que ele estivesse legalmente autorizado a andar armado e um local onde isso fosse permitido. A questão é mais ampla e mais profunda e vai além do esporte.

O influente jornalista Michael Wilbon, que cobre a NBA há décadas, declarou: “Na minha casa, eu disse ao meu filho: você não pode usar esse tênis, eu não vou comprar esse tênis, você não irá comprar esse tênis. Nosso dinheiro, na nossa família, não vai para isso”.

Quer queiramos, quer não, atletas e pessoas públicas em geral influenciam comportamentos, algo que se acentuou em um mundo de ampla exposição nas redes sociais. Não é à toa que a expressão influenciadores passou a ser tão utilizada.

Os Estados Unidos vivem uma questão delicada em relação às armas de fogo. Como relatado em uma matéria do portal Andscape, quase 50.000 norte-americanos morreram em razão de ferimentos relacionados a armas em 2021, o maior número já registrado, e as armas de fogo são a maior causa de mortes entre adolescentes.

Ja Morant joga em Memphis, cidade na qual, em setembro de 2022, um atirador matou 3 (três) pessoas e feriu outras 3 (três) em um mesmo dia. Meses depois, um homem matou 3 (três) crianças e 3 (três) adultos em uma escola primária de Nashville, cidade que, assim como Memphis, está situada no estado do Tennessee, no qual ocorreram 8 (oito) tiroteios em massa somente em 2023.

Em todo o território dos Estados Unidos, houve um total de 225 (duzentos e vinte e cinco) tiroteios dessa natureza este ano, tirando a vida de 296 (duzentas e noventa e seis) pessoas, muitas delas crianças.

Quando escrevemos nesta coluna sobre o “mundo invertido” de Kyrie Irving, atleta acusado de divulgar uma obra antissemita, esta foi a nossa posição:

Na era das redes sociais, os ídolos do esporte são, cada vez mais, formadores de opinião que precisam ter consciência da repercussão e das consequências que seus posicionamentos políticos e ideológicos geram ou podem gerar.

Além dessa consciência, é preciso que eles e outras figuras públicas aceitem que algum tipo de responsabilização é inevitável diante de certas atitudes, mesmo que elas não decorram de má-fé e que sejam atribuídas somente a alguma ´imprudência´ (…).

Evidentemente, deve ser dado aos atletas, como a qualquer cidadão, o direito de se manifestar segundo suas crenças. No entanto, esse direito não é um ´salvo-conduto´ absoluto para a prática de comportamentos que, do ponto de vista humanitário, são injustificáveis diante do sofrimento que causam a certas pessoas ou comunidades.

(…)

Não se trata, no caso, da ´patrulha do politicamente correto´ (…).

Pensamos o mesmo em relação a Ja Morant.

Com todo o talento que possui e com muitos anos de carreira pela frente, o atleta provavelmente terá a oportunidade de amadurecer e de se redimir, recuperando o prestígio do qual já usufruiu.

Ficaram pelo caminho milhões de dólares e incontáveis fãs, além da chance de, quem sabe, entrar para o seleto rol de jogadores que possuem relações “infinitas” com seus patrocinadores.

Contudo, se esse é o preço a ser pago para que Ja Morant corrija a rota de sua carreira e de sua vida, que seja. Há valores mais caros em jogo.

Crédito imagem: Brandon Dill/Associated Press

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