Jô, a bola e os símbolos no futebol

No domingo, 20, o Bahia enfrentou o Corinthians pela 5ª rodada do Brasileirão de 2021, em Salvador. O atacante corintiano Jô entrou com uma chuteira azul turquesa (segundo definição do próprio) facilmente confundida com o verde do seu maior rival, o Palmeiras. A Diretoria do clube rapidamente emitiu uma nota informando que “o atleta foi advertido, multado e não utilizará mais, seja em treinamentos ou em jogos” o acessório naquela cor.

O ponto de partida desse artigo é o quanto o futebol representa na vida das pessoas que realmente gostam dele. A discussão parte daqui.

Por quê? Porque a relevância desse esporte para os apaixonados é algo que se aproxima das religiões. E antes que alguém classifique a afirmativa anterior como uma blasfêmia, vamos à reflexão.

Algumas características que qualificam as religiões e suas correlações com o futebol:

Narrativas – Religiões possuem grandes narrativas, explicando a existência de divindades, começo do mundo… O futebol é extremamente rico em narrativas que constroem o inexplicável, as vitórias inesquecíveis, as derrotas marcantes. Os fatos históricos são as sementes e a narrativa os fertilizantes que toda a construção de mitos, ídolos e deuses necessitam.

Locais Sagrados – Religiões transformam em sagrados alguns lugares. O Muro das Lamentações, para o judaísmo, em Jerusalém. Santiago de Compostela, para o cristianismo, na Espanha (onde supostamente teria sido enterrado Tiago, um dos 12 apóstolos). Gaya para o budismo, na Índia. O futebol também tem seus templos: os estádios. E alguns são sagrados mundialmente: Wembley (Inglaterra), Azteca (México), Maracanã (Brasil), La Bombonera (Argentina), Centenário (Uruguai), entre outros. O estádio que seu clube joga é o templo sagrado que o fiel torcedor fortalece suas crenças e suas paixões.

Cânticos – Não é preciso mencionar o quanto as músicas e hinos fazem parte desse universo. Nietzsche dizia que a “música oferece às paixões o meio de obter prazer delas”. A explosão do grito de gol da torcida, momento mais sublime do futebol, é logo seguido dos seus cânticos e hinos.

Camisas de clubes são chamadas de “mantos sagrados” e os torcedores são os fiéis da bola. Deuses da vida e do futebol são colocados em pedestais inquestionáveis. Os apóstolos – aqueles mesmos responsáveis em disseminar os Ensinamentos do Evangelho, no Cristianismo – de hoje são os meios de comunicação. O jornal, a rádio, a tv propagaram o futebol para fronteiras regionais e globais. Eles alimentam as crenças, fortalecem os vínculos e fazem a roda girar sempre.

No mundo da bola, como nas religiões, os rituais fazem parte do combo paixão. Superstição, oração, uso de amuletos… tudo isso faz parte da ornamentação da fé. Fé no seu Deus, no seu Santo, no seu clube e no seu jogador.

Por isso que dizem que o futebol é uma religião. Tentar entender o que se passa na cabeça de todos nós que somos apaixonados (alguns sóbrios e conscientes, mas outros cegos e irracionais) é um bom requisito para não fazer julgamentos precipitados no caso do atleta do Corinthians.

Do ponto de vista jurídico, alguns especialistas não possuem um consenso se a multa era legal.

Se a situação expõe algo que pode refletir negativamente na imagem da instituição, há quem argumente que é possível a aplicação da punição, claro que ainda dependendo das normas do clube ou previsões contratuais, como afirma Vinícius Loureiro, em artigo neste blog.

Se o código de conduta do clube ou contrato do atleta não preveem esse tipo de situação, a multa não é cabível e pode ser qualificada como arbitrária, o que pode ser objeto de discussão pelo jogador, no futuro, na Justiça.

A Diretoria do clube conduziu da melhor forma o assunto? Uma nota emitida algumas horas após o jogo, afirmando que o jogador foi advertido e multado, indica alguns sinais de que o tema foi tratado para dar uma rápida satisfação para a torcida. Tão e somente isto.

O profissional Jô é um atleta que honra seus compromissos profissionais? No momento da elaboração deste artigo, o autor foi surpreendido com uma notícia de que no último domingo (27), o atleta foi flagrado saindo de uma festa clandestina, em São Paulo. O jogador desmentiu o ocorrido através de vídeo publicado nas redes sociais. O clube, neste caso, informa que tratará o assunto, internamente.

Em campo, o centroavante se tornou o maior artilheiro do século, com 56 gols pelo Corinthians ao marcar contra o Fluminense, além de 2 títulos brasileiros. É inegavelmente um ídolo dos últimos anos. Para onde vai pender a balança no julgamento dele? Foi um descuido ou uma provocação, o uso da chuteira naquela cor?

Como mencionamos em nosso último programa –   “A bola e seus símbolos. Amor ou loucura?” – o conjunto de símbolos do futebol (hinos e cânticos, escudos, bandeiras, mascotes, cores) coloca torcedores das mais diversas características socioculturais debaixo de um mesmo clã. Esses elementos e insígnias dão o senso de pertencimento. A identidade é única e os códigos que regem são tácitos.

Desprezar a relevância desse simbolismo que foi criado ao longo de décadas, herdado por diversas gerações e cultivado, inclusive pelas novas, é menosprezar o real significado desses elementos para o mundo da bola.

O atleta precisa ter a real noção desse significado e respeitar esses códigos. Vivemos uma época de “Tribunais das Redes Sociais” onde o julgamento é feito na mesma velocidade de uma banda larga e na mesma quantidade dos 280 caracteres de um tweet.

E nesse imbróglio de Corinthians e Jô, nós só temos uma certeza: não tem santo de lado nenhum.

……….

Renato Gueudeville é Administrador de Empresas com MBA em Finanças Corporativas. Gestor com know-how em reestruturação empresarial e atuação pelas principais instituições financeiras do país. Acredita que no mundo da bola, fora da gestão não há salvação. É sócio do Futebol S/A.

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