O preconceito e o código de conduta do UFC

Por Elthon Costa e Rafael Ramos

Na noite de sábado, 14 de maio, nas instalações do UFC Apex em Las Vegas, NV, os fãs tiveram a oportunidade de ouvir o áudio do corner de uma das lutas eliminatórias da noite, entre as peso-mosca Andrea Lee e Viviane Araújo. O que eles conseguiram não foi nenhum detalhe técnico de qualidade sobre o processo de luta, mas sim um discurso intolerante da boca do treinador de Lee, Tony Kelley, direcionado à sua adversária brasileira.

Lee reclamou em seu corner entre os rounds por ter sido cutucada no olho. Kelley respondeu: “É isso que eles vão fazer, eles são brasileiros sujos. Eles vão trapacear assim.”. O comentário não foi bem recebido pelos lutadores brasileiros nas redes sociais, com muitos esperando que Kelley receba um castigo quando enfrentar Adrian Yanez no UFC Austin em 18 de junho de 2022.

Nem o UFC nem a ESPN comentaram as declarações de Kelley, apesar de Kelley também estar contratado com a promoção como lutador da divisão peso-galo. Isso não é uma surpresa particular. No passado, o presidente do UFC Dana White deu de ombros para outros discursos ofensivos – como quando o lutador da Contenders Series Oron Kahlon chamou seu oponente Javid Basharat de “terrorista” durante a pesagem de sua luta – lembrando aos fãs que o MMA não é um “bom esporte”[1].

A recusa do UFC em fazer algo em relação a comentários como o de Kahlon e Kelley – ou o discurso de Cody Durden na jaula, onde ele disse que teve que enviar seu oponente do UFC Vegas 43 “de volta à China de onde ele veio” – sugere que a promoção está muito confortável com preconceitos casuais. Com um lutador como Colby Covington alegando que seu desabafo pós-luta sobre os brasileiros “sujos” após sua luta contra Demian Maia salvou seu emprego na empresa, não é difícil argumentar que o UFC possivelmente tolera e incentiva esse tipo de comportamento.

O problema é que a promoção vale bilhões de dólares e se tornou uma pedra angular semanal da ESPN – especialmente em seu serviço de streaming ESPN +. O UFC de hoje é, em muitos aspectos, tão corporativo quanto possível, completo com os acionistas da Endeavor buscando o máximo retorno de seus investimentos. Uma das maneiras mais fáceis de conseguir isso é tornar as coisas mais agradáveis ao público. Afinal, já é uma parte clara do “Código de Conduta[2]” da promoção.

Esse documento dá à empresa um poder claro para disciplinar seus talentos contratados para combater certas condutas, in verbis:

“Conduta depreciativa ou ofensiva, incluindo, sem limitação, linguagem ofensiva, símbolos ou ações sobre a origem étnica, herança, cor, raça, nacionalidade, idade, religião, deficiência, gênero ou orientação sexual de uma pessoa.”

O UFC usou seu código de conduta nos casos em que os lutadores foram punidos por usar insultos anti-gay, linguagem transfóbica e piadas sobre estupro, então a linguagem xenófoba e/ou racista está muito sujeita a algum tipo de sanção. Nesse caso, como havia um cornerman licenciado fazendo as agressões verbais, então, em teoria, a comissão também poderia punir Kelley por conduta que reflita um descrédito ao combate desarmado.

A promoção tem uma ampla latitude quando se trata de agir sobre seus lutadores, e o que quer que falte autoridade legal para punir, compensa com os contratos aos quais os vincula. Se o UFC quisesse forçar a contrição, poderia simplesmente suspender as lutas por um certo período ou até mesmo liberar Kelley do contrato, porque esse é o benefício de um acordo unilateral. Kelley poderia levá-los ao tribunal se ele se opusesse, embora ele precisasse dispender alto valor e bastante tempo para isso.

Ciente da reação, Kelley[3] foi às redes sociais para explicar que seu comentário sobre ‘brasileiros sujos’ era uma referência a uma cutucada no olho e não tinha nada a ver com raça. O nativo de Louisiana também sugeriu que ele fora vítima da ‘cultura do cancelamento’.

A cultura do cancelamento é real”, ele postou. “O que eu disse foi real e no calor da batalha, e de forma alguma tinha qualquer tipo de conotação racista, mas se é assim que você entende, f…. Tantas pessoas rápidas para dizer “racista”… que m**** ficando tão velha. Minha referência foi a um dedada suja no olho.”

A despeito das orientações e bravatas de seu técnico, Lee, orientanda de Kelley, amargou uma derrota por decisão contra Araújo após três rodadas de luta.

O UFC cresceu com muitas dificuldades com as comissões atléticas ao longo dos anos. Porém, se não reforçar seu próprio código de conduta, também pode estar deixando muitas oportunidades na mesa.

A promoção precisa olhar para frente e ver que, ao impor seu código de conduta, seu melhor interesse seria atendido quando um de seus lutadores saísse tão claramente da linha. Afinal, eles já deixaram claro com sua recente proibição de bandeiras que se sentem perfeitamente bem sufocando a “liberdade de expressão” quando sentem necessidade.

Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo


Elthon Costa é advogado trabalhista e desportivo. É Sócio-Diretor Trabalhista e Desportivo no Todde Advogados e Membro da Diretoria e Pesquisador do Grupo de Estudos e Desporto São Judas (GEDD-SJ) e da Comissão de Direito Desportivo da OAB/DF. @elthoncosta

REFERÊNCIAS

CRUZ, Jason J. Mixed Martial Arts and the Law: Disputes, Suits and Legal Issues. 1ª. ed. North Carolina, EUA: McFarland & Company, Inc., Publishers, 2020. 212 p. ISBN 978-1-4766-7930-3.

[1] ORDONEZ, Milan. The world is ‘insanely politically correct’ – Dana White won’t sanction fighter for ‘terrorist’ remark. In: Bloddy Elbow, Site, out 27. 2021. Disponível em: https://www.bloodyelbow.com/2021/10/27/22748085/this-is-not-a-nice-sport-dana-white-wont-sanction-fighter-terrorist-remark-weigh-ins-ufc-mma-news. Acesso em 20 mai. 2022.

[2] UFC Fighter Conduct Policy. CANADIAN MMA Law Blog. Site, 2017. Disponível em: https://canadianmmalawblog.files.wordpress.com/2013/04/ufc-code-of-conduct.pdf. Acesso em: 19 mai. 2022

[3] Treinador se defende após acusação de racismo no UFC Vegas 54: ‘O que eu disse foi real e no calor da batalha’. In: ESPN. Site. 15 mai. 2022. Disponível em: https://www.espn.com.br/mma/artigo/_/id/10376856/treinador-se-defende-apos-acusacao-de-racismo-no-ufc-vegas-54-o-que-eu-disse-foi-real-e-no-calor-da-batalha. Acesso em 19 mai. 2022

 

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