O Vasco fez um golaço, a Alemanha empatou, o amor venceu

A semana entre 22 e 27 de junho de 2021 foi mais uma daquelas agitadas por jogos de futebol em todo o mundo. Porém, um jogo da série B do Campeonato Brasileiro e um jogo da Eurocopa, quem diria, tinham muito em comum. No Brasil, o Vasco coloriu sua tradicional faixa diagonal do uniforme e colocou bandeiras de escanteio com as cores do arco-íris (símbolo do movimento LGBTQIA+) em São Januário para o jogo contra o Brusque, pela série B, com a ideia de combater, de forma institucional, a homofobia. Do outro lado do Atlântico, Neuer, goleiro da seleção da Alemanha, usou braçadeira de capitão colorida na Euro e viu seu país se mobilizar contra uma decisão da UEFA de proibir a Allianz Arena, em Munique, que receberia Hungria x Alemanha, pela 3ª rodada da primeira fase da Eurocopa, de fazer referência ao Dia Mundial do Orgulho LGBT. Vale destacar a simbologia ainda maior dos gestos tendo em conta os adversários. No Brasil, o Brusque é patrocinado por uma empresa cujo dono é apoiador indiscreto de um governo que não respeita a causa LGBT. Na Eurocopa, a parte mais notável da torcida húngara, associada a um governo de extrema direita do país, se manifesta frequentemente também contrária às causas de combate a intolerâncias como homofobia, racismo, xenofobia, entre outras. No fim, outros estádios da Alemanha foram iluminados com as cores do arco-íris, longe da influência da UEFA no dia do jogo em Munique. O que une esses dois eventos está além do envolvimento coletivo, de posturas institucionais louváveis e necessárias de Vasco, governos e Federação Alemã. O elo que chama a atenção está em personagens que botaram seus nomes e sobrenomes na luta. Que não se acomodaram com os posicionamentos protocolares e aproveitaram o momento sublime do futebol, o gol, para irem além do discurso, para saírem de um aspecto coletivo sem rosto do combate à homofobia para levantarem (literalmente) a bandeira do respeito e do amor. Germán Cano, atacante argentino do Vasco, ao abrir o placar para o time carioca, foi até a bandeira de escanteio colorida e a ergueu para o céu. Com tanta ênfase quanto alegria, para não deixar dúvida do que ele (e pelo menos outros dois atletas – estrangeiros – do Vasco pensam sobre o assunto.).  Uma das mais belas imagens do futebol brasileiro no ano. 4 dias antes, em Munique, coube a Leon Goretzka, meia da seleção alemã, engajado com as causas sociais, com posicionamentos claros de combate a movimentos como fascismo e nazismo, empatar o jogo, aos 38 do 2º tempo, na Allianz Arena e classificar a Alemanha para as oitavas-de-final. Na comemoração, o alemão, em frente aos torcedores húngaros (muitos vestidos de preto, cor do uniforme 2 da Alemanha), fez o gesto do coração, olhando nos olhos deles, mirando o preconceito e respondendo com amor. Para mim, uma das mais belas comemorações da história do futebol. Felizmente, registrada em diversos ângulos pelas câmeras da UEFA. Hoje, com atletas e personagens do esporte se tornando indústrias independentes, sendo rostos mais populares que muitos escudos e brasões, é lindo ver a coragem de quem sabe a importância de seus gestos, saindo em defesa de quem sofre com violência, preconceito, exclusão. É lindo ver um movimento ganhando força e novos rostos em nome de uma premissa básica de qualquer esporte, o respeito, e de nossa essência como seres humanos, o amor.

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Cáscio Cardoso é apresentador e comentarista esportivo da Rádio Sociedade da Bahia, do Podcast 45 Minutos e do Futebol S/A. Acredita em um futebol melhor a partir do aprofundamento das ideias e do equilíbrio na relação entre paixão e razão na condução do esporte mais encantador do mundo. É sócio do Futebol S/A.

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