Quem o futebol pensa que é?

Por Renato Gueudeville

Quando Brasil e Argentina entram em campo, um grande conjunto da história formada por craques, títulos, rivalidades – entre seleções e nações – e uma parte relevante do significado do futebol praticado no planeta, chegam para compor esse grande enredo.

A rivalidade é no futebol, no basquete, no vôlei (acabamos de perder a medalha de bronze na Tóquio 2020 para os hermanos). Aliás, desde a disputa do protagonismo na América do Sul, datada a partir do século 19, que culminaram nos embates da Guerra da Cisplatina, as 2 nações sempre se estranharam. É um clássico herdado de Portugal e Espanha, atores e rivais seculares da península ibérica. Tente explicar as razões disso sem olhar para séculos atrás e falhe miseravelmente.

Quando Brasil e Argentina entraram em campo no 05 de setembro de 2021, todos esses ingredientes ficaram em segundo plano e deram lugar a um ator sinistro que vive espreitando o mundo da bola: a soberba do futebol.

Este autor já escreveu, em artigo aqui no Lei em Campo (“Um Black Mirror chamado futebol”), sobre a realidade paralela que vive o esporte bretão em relação ao modus operandi da criação da sua própria bolha.

Como não lembrar de um avião trazendo 17 toneladas de muamba de todos os jogadores, comissão técnica e integrantes da CBF após a conquista da Copa de 94, com seu presidente (Ricardo Teixeira) negociando diretamente o ministro da fazenda da época (Rubens Ricúpero) para que todos fossem liberados pela Receita Federal? Claro que sem esquecer que os jogadores ameaçaram não desfilar em carro aberto se o caso não fosse resolvido. Quem você pensa que é, Receita Federal?

Eis que no episódio da semana passada, protagonistas de um jogo de Copa do Mundo (sim, Eliminatórias são jogos da seletiva das Copas do Mundo) atuaram durante seis minutos até serem interrompidos por agentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) por uma razão: retirar quatro jogadores da Argentina que descumpriram protocolos para entrada de viajantes em solo brasileiro.

Não saberia nem por onde começar os absurdos de todo o filme. Vamos começar pela melhor maneira de entender algo: perguntando!

– O que leva a AFA, sabendo dos protocolos vigentes de cada nação (eles acabaram de ganhar um título de Copa América aqui dentro), desrespeitar – e peitar – uma resolução de órgão regulador nacional do país em que eles estão em solo?

– O que levou jogadores argentinos prestarem falsas informações sobre sua estadia na Inglaterra, África do Sul, Irlanda do Norte e Índia, menos de 14 dias da entrada deles no Brasil? Quem você pensa que é, imigração brasileira?

Isso lá onde eles moram, em terras inglesas, faz com que eles vejam o “sol nascer quadrado” durante 10 anos. Dá cadeia!

Em razão da gravidade do assunto, uma reunião de emergência foi realizada no sábado (1 dia antes da partida), às 17 horas com representantes da Conmebol, AFA, CBF, Secretaria da Saúde de SP, Ministério da Saúde e ANVISA. Dali, saiu a orientação que os argentinos elaborassem um de excepcionalidade para que fosse avaliado, mas, até lá, os 4 jogadores deveriam permanecer em quarentena no hotel. Enquanto a reunião acontecia, os jogadores já estavam participando do treino com o resto do selecionado.

Brasil e Argentina podem ter mais semelhanças do que rivalidades. A mesma “La mano de Dios”, de Maradona contra a Inglaterra em 1986, que é endeusada por lá, possui características muito semelhantes à malandragem de Nilton Santos contra a Espanha em 1962.

Foram “2 passinhos à frente” que evitaram um pênalti contra o Brasil e uma “mano de Dios” que ajudou a Argentina. Em ambos, os caminhos foram selados para seguirem aos títulos. Em ambos, o culto ao folclore das espertezas é visto como supremacia.

Ariano Suassuna, na obra de arte “O Auto da Compadecida”, eterniza na cena de Nossa Senhora a seguinte fala ao defender João Grilo: “A esperteza é a coragem do pobre. A esperteza era a única arma que você dispunha contra os maus patrões.”

Fomos moldados dessa forma. A Lei de Gérson já valorizava a esperteza, o levar vantagem em relação aos outros.

É assim na vida e é assim no futebol. Por quê?

Porque o futebol pode até ser uma bolha, uma ilha, mas é habitada pela mesma sociedade que modela todos os outros participantes desse grande filme.

E as perguntas não param de martelar nas nossas cabeças sobre o episódio.

– Qual a razão da AFA orientar o abandono do campo? Os discursos foram direcionados como se a decisão partisse da comissão técnica e dos jogadores. Alguém acredita nisso por 5 segundos? Contavam com mais uma “La mano de Dios”?

Nunca é demais lembrar que, há 4 meses atrás, o time do Independiente teve parte da delegação retida no aeroporto de Salvador, um dia antes da partida contra o Bahia na Sul-americana, em um bate-cabeça da Conmebol desalinhada com os protocolos de entrada no Brasil.

– Por que a CBF ficou surpresa com a ação da Anvisa no dia se já sabiam quais desdobramentos poderiam ocorrer da situação? Acharam que o episódio passaria em brancas nuvens? Contavam com mais “2 passinhos à frente”?

– Por que o Presidente da CBF em exercício tentou acionar a Casa Civil para tentar persuadir o fiscal da Anvisa? Quem você pensa que é, servidor público da agência nacional de vigilância sanitária?

E quando tudo parecia caótico e nonsense, surgem Neymar e Gabigol, à beira do campo, aos sorrisos e com os seguintes registros nas suas contas pessoais do Instagram após a pseudo-partida:

E Richarlison, para coroar todo episódio, coloca na postagem do Neymar aquela provocação fora de qualquer contexto: “Procurando um rival na América”.

Como muito bem abordado por Cáscio Cardoso, no Futebol S/A do último sábado  (Quem o futebol pensa que é?), depois de um episódio lamentável em que expôs o país e as autoridades locais (ANVISA, Polícia Federal, Governo de São Paulo, Ministério da Saúde), Confederações (CBF e AFA) e colegas de profissão argentinos que mentiram no formulário de entrada no país, os jogadores brasileiros demonstraram completa falta de conexão com o mundo real.

Jogadores que possuem verdadeiras nações digitais (são 170 milhões de seguidores, 160 milhões somente de Neymar) e não mobilizam sua comunicação e posicionamento para trabalhar de forma construtiva a mensagem para a sociedade.

O que aconteceu foi um dos maiores constrangimentos em um evento esportivo e dois dos maiores atores brasileiros estão ali, na beira do campo, dando risada e resenhando como se estivessem numa mesa de boteco. Quem você pensa que é, torcedor brasileiro e autoridades governamentais?

E de quem é a culpa disso tudo? De todos nós.

A sociedade idolatra ídolos confundindo competências profissionais com valores pessoais, caráter. Não saber separar esses conceitos é devastador.

Grandes personagens da vida brasileira precisam ser referências de seus feitos, da sua história, da sua contribuição para a sociedade. O problema é quando as nossas referências passam a ser dos falsos ídolos.

Torcedor, imprensa, players relevantes da indústria … todos têm sua participação na construção desse meio. O desafio é saber onde começa e termina essa bolha.

Cobrar do futebol a ética, o bom senso, a civilidade que a sociedade não entrega é, no mínimo, estar desconectado da realidade. Quem você pensa que é, povo brasileiro?

Crédito imagem: AFP

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Renato Gueudeville é administrador de empresas com MBA em Finanças Corporativas, conselheiro consultivo e gestor com sólido conhecimento em reestruturação empresarial com atuação pelas principais instituições financeiras do país. Acredita que no mundo da bola, fora da gestão não há salvação. É sócio do Futebol S/A.

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