A mulher de César

No dia 1º de maio de 62 a.c. aconteceu, na casa do imperador romano Júlio César, uma festa reservada exclusivamente às mulheres, organizada por sua esposa, Pompeia Sula.

Ocorre que Publius Clodius, apaixonado por Pompeia, atrevidamente disfarçou-se de tocadora de lira e entrou clandestinamente na festa, na esperança de se aproximar da mulher de César. Entretanto, o estratagema foi descoberto e não conseguiu ir adiante com seu intento.

No mesmo dia, todos os romanos souberam do episódio e César não pestanejou: divorciou-se imediatamente de Pompeia. Embora nada tivesse acontecido entre Publius e Pompeia, César justificou sua posição ao dizer que “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”, no que deu origem ao famoso provérbio: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

O ditado se encaixa como luva bem ajustada ao craque Daniel Alves. E olha que não é qualquer luva que ele pode usar, uma vez que Daniel fraturou seu antebraço direito há quase um mês, o que vem impossibilitando o jogador de atuar desde então.

Ele, porém, não se sentiu impedido de batucar um tantã com amigos usando a mão fraturada e ainda deu a conhecer desse evento a todos, postando um vídeo sobre o encontro numa rede social.

Daniel Alves talvez não saiba, mas deveria ser orientado por seus assessores sobre alguns deveres que ele precisa cumprir, ainda que não estejam traduzidos em contrato.

Com efeito, certas atitudes deixaram de ser meras regras de etiqueta ou de comportamento social, mas compromissos contratuais implícitos exigíveis juridicamente. Eles integram o conteúdo do princípio da boa-fé objetiva, que é parte estruturante de qualquer contrato que se estabeleça, seja dentro do esporte ou fora dele.

Dentre outras funções, a boa-fé objetiva traz para o atleta a obrigação de atender às justas expectativas de comportamento que se formam em torno dele. Em relação ao caso concreto, faz-se mister indagar qual postura que atletas devem adotar enquanto estiverem contundidos.

A resposta é simples: durante o período em que se encontram sob tratamento, eles precisam levar uma vida discreta. Isto é um sinal de respeito à instituição e aos torcedores e fator fundamental para passar a mensagem de que estão fazendo o máximo para se recuperarem o quanto antes, a fim de poderem voltar a jogar.

É o que se esperava de Daniel Alves. Os sinais que ele emitiu, entretanto, foram outros. Postar um vídeo batucando justamente com a mão fraturada, definitivamente não atende às expectativas do empregador e de seus patrocinadores. Deixa a impressão de que ou não está se cuidando ou está pronto para jogar e não se disponibilizou para entrar em campo. E tudo isso sem falar no desrespeito ao isolamento social…

Para piorar a situação, Daniel respondeu com ironia às reclamações da torcida, colocando mais gasolina na fogueira. Tal proceder é péssimo para ele e para o clube. Dificulta na captação de patrocinadores e piora o relacionamento com os torcedores, os quais são, em última instância, os responsáveis pelo pagamento de sua remuneração.

Agir dessa maneira implica em descumprir outro dever inerente à boa-fé objetiva que é o dever de cooperação, em que o atleta deve fazer o máximo para que o clube extraia o maior benefício possível com o contrato que celebrou, o qual, por sinal, não foi por um valor qualquer…

O São Paulo afirma que Daniel Alves vem cumprindo à risca seu tratamento. Houve igualmente quem dissesse que batucar um tantã não tem problema e é possível que o jogador tenha tomado todas as medidas de precaução contra a Covid-19 ao tocar com seus amigos.

Tudo isso pode ser verdade, mas jogadores do nível de Daniel são iguais à mulher de César.

Não basta serem honestos.

Precisam parecer também.

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