A voz da torcida muda o jogo fora do campo!

Por Alberto Goldenstein e Luiza Rosa Moreira de Castilho

A semana antecedente ficou marcada por uma possível e iminente reviravolta no mundo do futebol. Olhares e opiniões de todos os cantos foram reproduzidos de todas as formas possíveis, o que faz com que não possamos deixar de lado os aspectos mais provocantes desse contexto. Mas claro, sem fugir do nosso propósito primordial que é correlacionar os acontecimentos esportivos com o direito, a sociedade e o entretenimento.

O plano da criação de uma SuperLiga já assombra o futebol europeu há mais de vinte anos. Lá no início, a formação de um G14 e, posteriormente, da Associação de Clubes Europeus se tornou o meio para os clubes reivindicarem alguns direitos perante a UEFA e a FIFA, chegando a negociar com as máximas entidades na composição das regras das respectivas competições.

Se faz necessário destacar que esses clubes eram considerados da elite europeia e recorrentes na classificação para a UEFA Champions League ou Europa League.

Apesar disso, nos últimos anos e, principalmente, com o advento da pandemia, que gerou grandes prejuízos para o futebol mundial, doze dos principais clubes europeus tomaram a iniciativa de constituir uma liga que não estaria sob o controle da FIFA e, consequentemente, da UEFA.

A divulgação do nascimento da SuperLiga teve uma repercussão um tanto quanto negativa, não só no meio futebolístico, mas na política, na mídia e na sociedade. A mobilização foi notável a ponto de fazer com que a maioria dos dirigentes envolvidos pedissem desculpas às torcidas. JP Morgan também oficializou sua escusa pelo apoio financeiro à competição.

Sempre que possível trata-se aqui da visão de que o esporte é, também, um negócio. Por outro lado, ressaltamos o caráter social que ele nos revela, o que nos leva a perguntar se toda essa movimentação em prol da diluição da liga era puro e simples descontentamento.

Em um mundo onde giram as grandes cifras e, praticamente, tudo é sobre dinheiro, fica difícil imaginar que na última semana se tratou somente de insatisfações. Segundo as principais fontes, os clubes que participariam da SuperLiga estimavam dividir até 3,5 bilhões de euros apenas por sua inauguração. No entanto, a pressão da torcida, dos patrocinadores e, com especial força, da UEFA e FIFA, falou mais alto, e o projeto de longa data (quase) caiu por terra.

Ao passo que as entidades lucrariam com a nova competição, muitas perdas poderiam se tornar irreversíveis a curto prazo. Mas, um dos pontos chave que reverberou fortemente, foi o protesto que sinalizou a origem humilde do futebol: “created by the poor, stolen by the rich”. Este colocou milhares de fãs contra a flagrante elitização da modalidade, com argumentos originais sobre a produção e vivência desse esporte pela classe trabalhadora desde seus primórdios.

Cabe ponderar se, diante de todas as regulamentações e prospectos de mudança para o esporte como micro sociedade, efetivamente estamos buscando essa transformação ou apenas dando uma resposta vazia aos que clamam por ela. Afinal, é ou não é só futebol?

Logo após as primeiras notícias de desistência de clubes que integrariam a liga, todas vindo de equipes inglesas, Patrice Evra brindou a internet com uma sólida reflexão sobre os últimos acontecimentos. O ex-futebolista, além de criticar veemente o projeto da liga que, em seu ponto de vista, destrói o sonho de muitas crianças, também buscou entender a potência dos protestos:

“One simple question: Why don’t we have the same energy, the same passion, the same commitment to fight against the racism in football?

E logo responde que, neste caso, “there’s nothing to gain, there’s no money”. Sob essa ótica, entende-se que o estímulo para lutar por uma causa, dentro do entretenimento – e, muitas vezes, fora dele – demanda o auferimento de lucro. Se alguém ganhar algo com isso, a motivação é legítima.

Não deveria ser assim. E não dizemos que as circunstâncias para afrontar a criação de uma liga que mudaria os rumos do futebol global não são autênticas, mas que são tão genuínas quanto outras causas que não recebem o mesmo tratamento pela sociedade em geral. Ou, ainda que recebam, as questões morrem assim que outras tomam seus lugares.

A velocidade da difusão de informações através dos meios de comunicação atuais é muito significativa neste ponto, mas pode ser utilizada para o bem.

A todo tempo são lançadas campanhas, a nível estadual, nacional e internacional, em favor da observância dos direitos humanos no esporte. No âmbito do futebol, em especial, temos a FIFPro, que produz relatórios regulares sobre tópicos envolvendo mulheres, racismo e outras discriminações corriqueiras.

No entanto, a realidade é dura mesmo, até porque a quantia envolvida nessas ações é mínima. Se torna muito mais fácil manter uma linguagem de defesa aos direitos do que, efetivamente, garanti-los. Há uma espécie de hierarquia sobre a importância e urgência das matérias relevantes e, as que geram mais rendimentos, sempre estarão no topo.

A forma como o falatório ecoa, alcança aqueles que sequer se beneficiam ou prejudicam com o episódio.

Pensando por essa perspectiva, chega a embrulhar o estômago e causar certo desapontamento com a máquina do desporto. Mas, se contemplarmos as nossas atitudes, notamos que frequentemente nos omitimos, somos hipócritas e até irracionais ao nos calar diante de discursos misóginos, racistas e outros quaisquer de cunho preconceituoso.

É por isso que a revolta com a criação da SuperLiga nos ensina muito. A necessidade de sonhar um futuro diferente dentro do futebol vai muito mais além do que discordar de um novo modelo de competição europeu. Ela ocasiona a reflexão sobre temas que estão há muito mais tempo se repetindo dentro do esporte e que valem a nossa sensatez para refuta-los.

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