Alerta laranja

“Laranja mecânica” (1971) é um filme que narra a vida de Alex, um jovem que ama a violência e lidera uma gangue que pratica os mais bárbaros crimes. Alex comete um assassinato horripilante que o leva à prisão. A partir desse momento sua vida nunca mais seria a mesma.

 Da mesma forma, um crime escabroso assombrou o futebol brasileiro. Trata-se do homicídio de Elisa Samúdio, em que foram condenadas várias pessoas pela sua morte. Dentre elas está o Bruno, ex-goleiro do Flamengo, cuja vida parece ter igualmente tomado um rumo sem volta.

O nome do filme está eternamente associado ao futebol, pois serviu de inspiração para o apelido atribuído ao fantástico time da seleção holandesa da Copa de 1974. Agora, entretanto, sua conexão com o mundo da bola possui um caráter bem menos glamoroso, pois está relacionado à mecânica da vida de um desportista que sai da cadeia.

Este é precisamente o caso de Bruno, que após ostentar por anos a fio o uniforme laranja do sistema prisional onde esteve encarcerado, encontrou parcialmente a liberdade. Ele foi autorizado a cumprir sua pena em regime semiaberto, desde que fosse para trabalhar.

O problema é que está dificil conseguir emprego. Após ser anunciado pelo Operário Várzea-Grandense como provável contratado, Bruno foi descartado em virtude de protestos da torcida e da perda de alguns patrocínios.

A recuperação de detentos e sua reinserção no convívio social é um assunto delicado e dificil de resolver. Parece que todos estão de acordo que a cadeia no Brasil não recupera ninguém. Isto para não falar que, ao cumprir sua pena, o indivíduo frequentemente sai de lá ainda pior do que era quando entrou.

Em “Laranja mecânica” essa igualmente é a ideia que nos é passada. Lá o governo acha que a prisão não é um lugar para recuperação, mas um ambiente que propicia o aumento da maldade e da violência. Por isso, começam a testar o chamado “tratamento Ludovico”: um tratamento psiquiátrico doloroso que seria capaz de transformar alguém “mau” em “bom”.

Na vida real, não parece haver dúvidas de que não há melhor forma de tratar recém saídos do cárcere do que lhes oferecer trabalho. Ele dá dignidade e ocupa a mente, desviando a pessoa de pensamentos criminosos.

Contudo, entre a teoria e a prática existe um enorme abismo e que reflete como funciona nossa sociedade. Assim, por exemplo, sabemos que é importante exercer a caridade, mas poucos são os que a praticam. A maioria é a favor do meio ambiente, mas poucos são os que estão dispostos a abrir mão do conforto que tanto contribui para o aquecimento global.

De idêntica maneira vemos acontecer no tema em apreço. Muitos concordam que a ressocialização do preso é fundamental, mas poucos são os que se apresentam para oferecer emprego. Veja-se, a propósito, que quando havia a chance de Bruno ser contratado pelo Operário, algumas entidades da sociedade civil disseram que ele poderia trabalhar, mas não naquela cidade…

Protestos foram feitos também na entrada do Estádio de Cuiabá antes da realização do jogo do Operário contra o Poconé, pelo Campeonato Mato-Grossense.

Chamou a atenção o fato de que manifestantes gritavam: “Quem contrata feminicida apoia o feminicidio!”. Será mesmo? Então quem contrata alguém que foi condenado por vender drogas apoia o narcotráfico ou quem admite um trabalhador que tenha praticado um ato racista é a favor do racismo? E se ninguém der emprego, como querer que estas pessoas se ressocializem?

Sem perspectivas, um dos caminhos possíveis é o da reincidência, criando um círculo vicioso. A pessoa comete um crime, é punida e depois não consegue o reingresso na vida social, voltando então a cometer novos crimes: uma autêntica laranja que gira mecanicamente em torno de seu próprio eixo.

O fato é que o ex-presidiário acaba tendo uma falsa sensação de liberdade, ficando preso ao seu passado do qual parece jamais conseguir se libertar. Foi o que aconteceu com Alex, que sentiu isso literalmente na pele. Ao sair da cadeia, ele é espancado por várias pessoas, inclusive por policiais que também quase o matam afogado.

Alex não voltou a reincidir porque o tratamento Ludovico anulou sua personalidade completamente, tornando-se alguém sem reação e desprovido de qualquer livre arbítrio.

É claro que não é simples contratar gente egressa do sistema penal, mas apenas e tão somente ignorar o problema não resolve as coisas, porque quando a sociedade o empurra de um lado para outro, ele acaba se voltando de alguma maneira contra ela mesma.

Não é preciso ser um bom meteorologista para prever que tempos ruins estão por vir se nada for feito.

Então que fique consignado nosso alerta que é grave, bem grave.

Um alerta laranja.

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