Antes de Mandela, Gandhi teve futebol como aliado no combate ao preconceito na África do Sul

O esporte tem também um papel social transformador. E só não sabe disso quem não conhece a história. Ele já parou guerras, enfrentou o nazismo, uniu povos, ajudou na abertura democrática brasileira e também a combater a segregação na África do Sul. E nessa história, o futebol contou com um personagem improvável: Mahatma Gandhi.

Gandhi teve uma história riquíssima de luta contra a desigualdade, mas quase toda ela ligada à Índia, na campanha pacífica para libertar seu povo do domínio britânico e no combate à pobreza. Mas bem antes disso, ele deu uma passada pela África do Sul, e teve o futebol como aliado para combater a segregação.

A história esta no site da FIFA e precisa ser lembrada nesse momento em que o mundo sofre com uma pandemia inimaginável, que afeta a economia e atinge ainda com mais força aqueles que tem menos.

No final do século XIX, o jovem indiano foi até a África do Sul para trabalhar como advogado. Já na chegada, em um trem que o levaria de Durban para Pretória, sentiu a segregação escancarada que dominava o país.

A passagem de Gandhi era de primeira classe. Mas por ser hindu, os responsáveis pela viagem quiseram que ele trocasse de classe, e viajasse com negros e não no espaço destinado exclusivamente a brancos.. Ele não concordou e abandonou o trem.

Gandhi começou então uma campanha de desobediência civil entre a população hindu da África do Sul. A filosofia de resistência por meio da não-violência já era colocada em pratica e ele iniciava uma conscientização necessária que se transformou em mudança real na sociedade quase um século depois.

Assim como Mandela enxergou a força transformadora dos esportes nos anos 90, bem antes Gandhi entendeu que o futebol tinha a atenção dos mais pobres na África do Sul. E isso seria um aliado na defesa da ideia do indiano.

Ele criou três times, um em Durban, outro em Pretoria e mais um em Johannesburgo, e deu a todos o mesmo nome: “Passive Resisters Soccer Club”, traduzindo “Resistência Passiva Futebol Clube”.

Não existe nenhum relato de que Gandhi tenha jogado pelos clubes, até porque o esporte preferido dele era o críquete. Mas se sabe que ele falava aos jogadores sobre os princípios da resistência não violenta e aproveitava os jogos para pregar contra a segregação racial. O Old Court House, museu de Durban, tem fotos em que ele aparece perfilado ao lado das equipes e discursando para o público em campos de futebol.

Do discurso à pratica. Em jogos do Resistência Passiva Futebol Clube, familiares de vítimas do governo sul-africano passaram a se manifestar contra suas prisões. Em um jogo entre as equipes de Johannesburgo e Pretoria em 1910, os jogadores protestaram contra a prisão de cerca de cem oposicionistas às leis de segregação locais.

Embora o Resistência nunca tenha atuado oficialmente em uma liga, Poobalan Govindasamy, ex-presidente da Associação de Futebol de Salão Sul-Africana, disse para o site da FIFA que o legado deixado por Gandhi para o esporte sul-africano é muito maior do que se imagina.

“Sua capacidade de organização ajudou na construção das estruturas esportivas não-raciais da África do Sul de hoje. Ninguém, naquele tempo, fez mais do que Gandhi e seus companheiros para envolver quem não era branco, principalmente a comunidade indiana local, em atividades esportivas estruturadas”.

Um exemplo está na criação, em 1903, da Associação de Futebol Hindu da África do Sul. “Ainda faltava muito para uma nação unificada ideal como temos hoje, mas foi pavimentado o caminho para a criação de uma federação nacional e de ligas em que era possível jogar independentemente da cor da pele”, disse ainda Govindasamy.

As experiências com o Resistência Passiva acabaram depois que Gandhi deixou a África do Sul, em 1914, para fazer história em sua terra natal. Seu legado, porém, continuou em fotografias, relatos orais e, principalmente, na semente contra a segregação plantada na África do Sul.

O esporte não se separa da vida. Eles caminham juntos, nem sempre por terrenos tranquilos. Popular que é, ele foi – e é – usado como vínculo de identidade de nações em vários lugares do mundo. Com histórias fantásticas, e outras tristes.

Hoje, o esporte vive uma briga contra o vírus.

E nessa hora lembrar da história que carrega, passa a ser indispensável para o esporte. Assim, olhando para trás, ele pode seguir em frente pensando na proteção à saúde de todos e no auxílio a quem mais sofre nas grandes crises: aqueles que menos têm.

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