E depois da academia?   

A palavra academia, do latim Acadēmīa ou em grego Akadēmía, é de etimologia comumente associada ao local onde Platão ensinava seus pupilos. Muitos acreditam que o nome surgiu em homenagem ao dono das terras onde Platão tinha sua escola, o herói Akademos. E assim, de forma geral, a palavra é de fácil associação a um lugar onde é proporcionado a transmissão de ensinamentos, reflexão e estudos. Ou seja, escola.

No futebol europeu (tendo em vista que no futebol brasileiro a palavra “academia” tem outro significado devido ao chamada Academia do Palmeiras durante os anos 60 e 70), uma academia de futebol, via de regra, é uma estrutura organizada para desenvolver jovens futebolistas. Pode-se dizer que é uma escola de treinamentos que visa ensinar jovens atletas a jogar futebol de acordo com os padrões do clube em questão mas que os incentivam a continuar seus estudos.

Em nossa coluna/seção, já escrevemos sobre o tema. Já relatamos a importância do apoio das famílias e o encorajamento, desde a infância, para que jovens atletas, qualquer que seja a modalidade do esporte, continuem seus estudos, já que a carreira de um atleta de elite não dura muito. Porém, esse apoio e encorajamento nos parecem exceção à regra. Desde a infância, a expectativa que temos de atletas é que se dediquem ao esporte o máximo possível, para que sejam bem-sucedidos. Não poderia ser diferente. Uma vez que alguém é “abençoado” com o dom para o esporte, por que não encorajá-lo a tentar ser o melhor atleta possível?

Muitas vezes os pais, técnicos, clubes e agentes enfatizam a superação no esporte em detrimento do encorajamento e da orientação para continuarem estudando.

Se a carreira de um atleta de elite não dura muito (entre 15 e 20 anos em geral), o que podemos dizer daqueles jovens que, apesar de estarem nas categorias de base de clubes famosos, não conseguem se estabelecer no futebol profissional?

Segundo reportagem da Sky News esta semana, entitulada “Youth football: What happens to those who don´t make it?”, um número alarmante de jovens apresentam  sérios problemas uma vez que não conseguem o tão sonhado contrato profissional com os clubes. Ou seja, apesar de anos nas categorias de base, a grande maioria dos atletas não são retidos pelos clubes.

A impressionante reportagem da jornalista Martha Kelner (Sky News), relata que há sempre entre 10.000 e 12.000 meninos no sistema de desenvolvimento juvenil do futebol britânico, as chamadas academias. Só nas academias das agremiações da Premier League, existem cerca de 3.500 meninos; os mais novos têm nove anos, embora o treinamento pré-escolar possa começar ainda mais cedo.

Clubes da Premier League devem seguir as Regras de Desenvolvimento da Premier League, permitindo a cada clube o registro de 250 jovens em sua academia. Porém, a reportagem relata que dos que ingressam nas academias com nove anos de idade, menos de 0,5% se tornarão atletas profissionais capazes de “ganhar a vida” com o esporte.

As academias das agremiações da Premier League encorajam os estudos por parte dos atletas bem como fornecem, na grande maioria, estrutura invejável para o ensino muitas vezes com estruturas melhores do que escolas particulares.

Em julho de 2020, acompanhamos pessoalmente o exame médico e assinatura de contrato de uma promessa do futebol inglês com uma das mais famosas agremiações da Premier League. Enquanto o menor, acompanhado de seu pai, participava do exame médico, tivemos a oportunidade de conversar com o diretor de contratações daquela agremiação, que muito cordialmente e com orgulho nos olhos nos mostrou as instalações da academia: campos cobertos e com aquecimento do gramado apropriados para não desgastar os menores durante os meses de inverno na Inglaterra; salas de aulas de primeiríssimo padrão com equipamentos de alta tecnologia; acompanhamento personalizado para cada jovem por meio de pedagogos e aulas particulares; desenvolvimento de grade curricular específica para cada jovem além dos requisitos mínimos de base de ensino estabelecidos pelo governo britânico; cafeteria onde os atletas obtêm suas refeições durante todo o dia, posto que lá ficam o dia inteiro apenas retornando aos seus aposentos (casas de famílias pré-aprovadas pelo clube em sistema de “intercâmbio” e próximas ao centro de treinamento) no final da tarde, conduzidos pelos motoristas do clube que os buscam e levam todos os dias.

Apesar de toda a estrutura que pudemos conferir, o que acontece com aqueles jovens que não “conseguem”? O futebol, ou melhor, as academias os preparam adequadamente para a vida e para carreiras alternativas?

Segundo a reportagem citada, a trágica morte de Jeremy Wisten, de 18 anos, reacendeu a discussão sobre o papel que as academias de futebol desempenham no desenvolvimento de jogadores jovens e se a escala da operação tem caráter exploratório. Jeremy foi um jogador muito promissor na academia do Manchester City, começando com o Elite Squad do City no sub-13 em 2016, mas após sofrer uma lesão foi dispensado pelo clube em maio de 2019. Ele foi encontrado enforcado em seu quarto em outubro do ano passado. Seus pais prestaram homenagem ao treinador do Manchester City, mas disseram que Jeremy ficou arrasado após sua liberação pelo clube. Um inquérito será realizado em poucos meses e o clube foi solicitado a fornecer uma declaração detalhando o apoio que foi dado a Jeremy durante seu tempo no clube e após sua liberação.

A reportagem apresenta crítica a respeito do número de jovens que estão sendo levados para as academias, sendo eles cada vez mais jovens. Vários meninos, segundo a jornalista Martha Kelner, mencionaram que sentiram que foram contratados simplesmente para atuar como “parceiros de treinamento” para um ou dois meninos de sua equipe que foram identificados como tendo potencial para progredir na carreira.

Apesar da educação acadêmica e cuidados com o bem-estar dos jovens melhoraram significativamente nos últimos 10-15 anos, parece-nos necessário abordar a discussão de forma ampla, sempre colocando a educação acadêmica como foco principal da formação dos jovens atletas.

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