E depois da adrenalina?

Recentemente participei de uma palestra durante a qual um grupo de quatro medalhistas olímpicos britânicos explicou como eles seguiram seus projetos pessoais e carreiras fora do esporte quando se “aposentaram”. O grupo era composto por uma nadadora, um canoísta, uma jogadora de hóquei e um jogador de rugby.

Com exceção da nadadora, todos conciliaram esporte e estudos, concluíram curso superior e, portanto, tiveram a oportunidade de se inserir no mercado de trabalho como pessoas comuns. Mercado financeiro e ecoturismo foram as escolhas deles. A nadadora está quase concluindo um curso técnico, mas já está fazendo estágio em uma empresa de investimentos.

Eles explicaram como foi importante o apoio das famílias e o encorajamento, desde a infância, para que continuassem seus estudos, já que a carreira de um atleta de elite não dura muito. Porém, esse apoio e encorajamento nos parecem exceção à regra. Desde a infância, a expectativa que temos de atletas é que se dediquem ao esporte o máximo possível, para que sejam bem-sucedidos. Não poderia ser diferente. Uma vez que alguém é “abençoado” com o dom para o esporte, por que não encorajá-lo a tentar ser o melhor atleta possível?

Muitas vezes os pais, técnicos, clubes e agentes enfatizam a superação no esporte em detrimento do encorajamento e da orientação para continuarem estudando.

O fato de que o grupo da palestra era britânico e, portanto, oriundo de um país tido como bem-educado não é justificativa para que atletas de outros países não se dediquem a um plano de carreira pós-aposentadoria. A conquista pessoal de concluir (no mínimo) um curso superior e consequentemente entrar no mercado de trabalho deveria fazer parte de uma estratégia de longo prazo para atletas em geral. Independentemente da nacionalidade dos atletas, todos sofrem dos mesmos problemas: pressão, falta de recursos financeiros/patrocínio, falta de plano de gerenciamento de carreira (incluindo o pós-carreira) e, é claro, o senso de “imortalidade”, típico da juventude, mas exacerbado pela adrenalina e sucesso que acompanham o esporte.

Será que podemos atribuir as conquistas acadêmicas do grupo da palestra ao fato de que seus esportes não são grandes pagadores de salários, como é o caso do futebol? E que, sabedores disso, planejaram melhor suas “aposentadorias”?

Se você achar que a resposta é “sim”, então será que não deveríamos encorajar os jogadores de futebol a dar prosseguimento a suas vidas acadêmicas muito mais do que os profissionais de outros esportes? Recentemente li um artigo em uma publicação internacional que, apesar de não divulgar a fonte, alegava que as estatísticas de jogadores de futebol aposentados são alarmantes: a cada dois, um se divorcia em até dois anos após a aposentadoria; a cada cinco, um entra em falência em até cinco anos; e, em 2016, mais de 140 jogadores aposentados estavam atrás das grades. Trata-se de uma questão de caráter universal.

O que nos parece certo é que as habilidades adquiridas ao longo de uma carreira na elite de qualquer esporte deveriam ser muito mais valorizadas no mercado de trabalho. Foco, capacidade de lidar com a imprensa, pontualidade e comprometimento com a sua equipe, liderança, consistência e autocontrole são características que todo empregador adoraria ter em seus funcionários e colaboradores. Assim, a falta de sucesso acadêmico nos parece ser o “elo perdido”.

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