Fifa pode sofrer avalanche de processos por concussão? NFL sofreu. E perdeu.

Foram dois casos sérios neste fim de semana no Pernambucano. Mas já aconteceu recentemente com Cássio, Jimenez, David Luiz, Pato.. a lista é gigante. Choques de cabeça no futebol podem levar à concussão.

E concussão no esporte é coisa séria.

A Fifa corre o risco de ser acionada e ter que pagar uma indenização milionária por não proteger como pode a saúde dos atletas. Isso já aconteceu com a NFL

A indenização bilionária da NFL

Para quem não sabe, concussão pode ser uma consequência de choques de cabeça. Ela se caracteriza pela presença de sintomas neurológicos sem nenhuma lesão identificada, mas com danos microscópicos, dependendo da situação, reversíveis ou não.

Isso está presente em esportes de contato, como futebol e futebol americano, por exemplo. Por causa desses choques de cabeça, a NFL sofreu com uma avalanche de processos.

Aconteceu depois que o médico Bennet Omalu fez uma pesquisa profunda e concluiu que a doença degenerativa em vários atletas de futebol americano, chamada ETC (encefalopatia traumática crônica), havia sido causada pelos golpes que eles haviam recebido na cabeça ao longo da carreira.

Ele então passou a apresentar os estudos à NFL, que negou qualquer tipo de relação e ignorou os estudos de Omalu e pedidos por mais segurança aos atletas. Acontece que outras pesquisas confirmaram a relação da concussão com a doença.

De posse desses estudos e entendendo ser vítimas de negligência da Liga, atletas entraram na Justiça.

E ela também entendeu que a NFL era responsável pela saúde dos atletas. A poderosa liga norte-americana chegou a pagar cerca de US$ 1 bilhão em processos e, então, decidiu criar novas regras de segurança no esporte, inclusive com o “Protocolo de Concussão”.

Hoje, a NFL tem um protocolo rigoroso. tem mudado regras de segurança no esporte. A autorregulação do esporte está deixando o jogo mais seguro. Ela investiu mais de 100 milhões de dólares para o desenvolvimento de tecnologias e apoio à investigação médica desses casos, ajudou a desenvolver um capacete tecnológico. Além disso, o jogo tem tido menos colisões perigosas.

Como é no futebol

Hoje o que a Fifa tem é um protocolo que permite que o jogador seja avaliado por três minutos dentro de campo. Passado esse tempo, ele tem de deixar o gramado para ser atendido – mas sem nenhum exame complexo para identificar a gravidade do problema.

Claro que o atendimento é feito de maneira acelerada para não haver perda técnica.

A maior preocupação dos órgãos que pressionam a Fifa para tomar atitudes mais severas no protocolo é o que se chama de “síndrome do segundo impacto”.

Uma segunda lesão, no mesmo lugar, num intervalo pequeno de tempo, torna a concussão muito mais séria, podendo ser fatal.

A Fifa sabe que o protocolo do futebol é falho. E desde 2019 tem discutido junto com a Ifab (que cuida das regras do jogo) mudanças. Neste ano, um avanço importante. Ela passou a permitir, de maneira experimental, a substituição adicional em casos de suspeita de concussão.

A Premier League foi a primeira grande Liga a adotar essa nova regra. Mas outros países, como Portugal, também deram esse passo.

O Lei em Campo trouxe a informação de que a CBF irá adotar essa regra ainda nesta temporada. Mas o futebol precisa avançar mais.

– médico independente para análise do caso;

– VAR participando da análise e monitoramento de atletas em choque;

– protocolo que puna clubes que não respeitarem o cuidado exigido;

São caminhos tomados por outros esportes que devem ser analisados.

Pesquisa mostra que futebol afeta saúde de atletas

Um artigo publicado em outubro de 2019 pela revista New England Journal of Medicine, uma das publicações científicas mais prestigiadas da área da medicina, trouxe levantamentos importantes, e surpreendentes. A repercussão tem sido gigante, uma vez que foi o primeiro estudo feito com uma grande amostragem de ex- atletas de futebol. Foram 7.676 ex-atletas e 23.000 controles.

O trabalho comparou a taxa de mortalidade entre ex-atletas de futebol na Escócia com a população em geral, num trabalho retrospectivo, feito de trás para frente.

Neste estudo, os pesquisadores concluíram que:

nos atletas o risco de de morte por doenças degenerativas é 3,5 vezes maior do que no não atleta;
para Esclerose Lateral Amiotrófica 4 vezes;
para causas diretamente relacionadas a Alzheimer foi 5 vezes maior;
O único dado positivo para o atleta é que a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares é 20% menor do que a da população geral.

Nesse trabalho ainda não foi possível encontrar essa associação das doenças aos traumas na cabeça, uma vez que não foram realizadas autópsias para estudo anatomopatológico nos cérebros. Essa é a única maneira de de se diagnosticar a Encefalopatia Traumática Crônica. Mas quem conhece o contexto das concussões cerebrais, sabe que as chances de relação são. Muito grandes.

O ex-zagueiro e capitão do título mundial de 1958, Bellini, sofria de demência e morreu em 2004. A família doou o cérebro para pesquisa, e neurologistas comprovaram que a doença foi causada pelas pancadas que sofreu com o jogo.

Recentemente, foi divulgado que Bobby Charlton, um dos maiores nomes do futebol inglês, também sofre de demência.

Os dados da pesquisa feita na Europa trazem números muito parecidos com as pesquisas feitas nos Estados Unidos com os ex-jogadores de futebol americano.

Risco de processo

Por não cuidar dos atletas, a FIFA poderia sofrer uma ação de indenização pelos danos que os jogadores sofreram no exercício da profissão.

Havendo uma comprovação científica de causa e efeito (futebol e doença) , associada a falta de comunicação e de preocupação da Fifa em relação às medidas de proteção aos atletas e de a regra do jogo não ter sido adaptada nunca, existe um caminho perigoso para a FIFA.

Além do nexo causal comprovado, outra questão é se a FIFA tem responsabilidade direta, afinal ela não é a empregadora dos atletas, mas, sim, os clubes.

A ação poderia ser proposta pela Federação Internacional dos atletas, ou mesmo de maneira individual.

O esporte muda a partir de provocações. A provocação pode aparecer como forma de aprimorar o jogo, ou de melhorar a segurança de quem joga. E ela pode aparecer a partir de processos judiciais, de tragédias, mas também do entendimento científico e humano de que o esporte precisa proteger a saúde de quem pratica. Esse entendimento é fundamental para o jogo e para o Direito Esportivo.

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