O ano da intolerância

2019. Marcado pela radicalização ideológica em todos os níveis tanto no Brasil quanto no mundo, o “ano do porco” para o calendário chinês gerou muita sujeira. Como o esporte é a esponja da sociedade, ele naturalmente absorveu e reproduziu todo o seu conteúdo tóxico.

É verdade que existiram coisas que não puderam mesmo ser toleradas. Assim, por exemplo, em 007 contra a mentira atômica não compactuamos com as mentiras criadas pela agência russa de controle antidoping para burlar a fiscalização realizada pela congênere mundial.

Da mesma forma, foi impossível aturar o legislador brasileiro na sua açodada iniciativa de transformar clubes em empresas, ao permitir regimes híbridos e desiguais de gestão, razão pela qual concebemos Dona flor e seus dois regimes jurídicos, onde procuramos apontar o equívoco de tal proposta.

Nosso nível de insuportabilidade atingiu o ápice quando percebemos que o legislador estava Brincando de faz de conta quando colocou no projeto de lei novas regras para o direito de imagem, criando uma verdadeira aberração jurídica.

Com efeito, o aludido PL fez de conta que o jogador de futebol é mais um produto de marketing do que ele realmente é: um profissional que presta serviços desenvolvendo sua atividade sob o regime de trabalho subordinado.

Todavia, nossa defesa do atleta profissional não chegou ao ponto de consentir com maus comportamentos. Por isso que em Neymar no país das maravilhas não aderimos à forma pela qual o brasileiro conduziu sua situação com o PSG, seu clube empregador, oportunidade em que ele violou o seu dever de cooperação, um dos elementos do princípio da boa fé objetiva.

Voltando ao tema central desta retrospectiva, é fácil dizer que intolerância altamente repulsiva foi a marca de 2019 e casos tristes que comprovam tal assertiva não faltaram. Em O pagador de promessas discorremos sobre a intolerância religiosa, usando como pano de fundo a desclassificação imposta por uma universidade americana a uma atleta que competiu portando um véu islâmico.

Foi também por intermédio do Islã e da morte de uma torcedora iraniana que levantamos o Véu da Hipocrisia, em que vimos como as mulheres foram discriminadas ao longo da história, não apenas no Oriente, mas principalmente no Ocidente.

Por outro lado, não basta ter boas intenções para acabar com a desigualdade que afeta o gênero feminino. Em Separados e desiguais, pudemos perceber que a criação de uma comissão disciplinar formada apenas por mulheres, ao invés de integrá-las ao ambiente que é predominantemente masculino, só serviu para deixá-las ainda mais isoladas desse contexto.

Essa ânsia em equiparar homens e mulheres em tudo, acaba dando errado mesmo. Em O Frankestein jurídico destacamos como as pessoas foram intolerantes com as declarações de Frank De Boer, de que não seria possível pagar idêntica remuneração a atletas femininos e masculinos. Vimos que o que Frank disse não tinha nada de monstruoso e ademais, possui respaldo no ordenamento jurídico.

Neste passo, é importante destacar que a tolerância deve envolver não apenas as diferenças inatas como gênero, origem, etnia e etc., mas também as escolhas que as pessoas fazem em suas vidas.

Por esse motivo é que saímos para Os embalos de sábado à noite, onde sublinhamos a necessidade de respeitarmos a escolha de Marivaldo, torcedor do Sport de Recife que, sem dinheiro, costuma caminhar 60 Km de Pombos, no interior pernambucano, até a capital Recife, por nada menos que 12 horas, para ver jogos do seu time de coração.

Por sua vez, um tipo peculiar de intolerância ocorrida em 2019 foi igualmente objeto de nossos comentários: a intolerância esportiva com resultados negativos de Botafogo, Cruzeiro e Fluminense fez com que membros de torcidas organizadas invadissem os centros de treinamento dessas equipes, motivando-nos a escrever Invasão Alienígena, em que elencamos as penas que poderiam ser aplicadas a essas pessoas.

A propósito, tais episódios levaram o legislador a alterar recentemente o Estatuto do Torcedor, para incluir no Diploma a punição para todos aqueles que participem de invasão a locais de treinamento.

2019 foi marcado igualmente pela intolerância nos tribunais desportivos. Em A Festa da insignificância, ressaltamos a postura intransigente do STJD em condenar Gabigol pelo inofensivo gesto de haver segurado o cartaz de um torcedor que dizia ingenuamente “Hoje tem gol do Gabigol”.

Da mesma forma, condenaram desnecessariamente o treinador Jorge Jesus por suas críticas à arbitragem. Seguindo As pegadas de Martinho, mostramos que o exercício da liberdade de expressão é fundamental para mudar o rumo de instituições que trilham o caminho errado.

Por sua vez, em Medida desmedida apontamos a intolerância do referido tribunal com um jogador que não pagou as custas de um processo que ele mesmo venceu, num episódio que só desestimula quem procura a justiça para fazer valer os seus direitos.

A intolerância dos tribunais não foi um privilégio do Brasil. Em Comédia à italiana, cuidamos do absurdo das punições que a justiça desportiva da terra do Papa impôs aos atletas que invocaram o nome de Deus em campo.

Porém, os casos mais gritantes de intolerância foram as ofensas racistas cometidas na própria Itália e no resto da Europa. Casos inacreditáveis e repugnantes desse tipo envolvendo torcedores, dirigentes e até jogadores, mostraram que 2019 foi difícil de tolerar.

Vivemos tempos de tanta intolerância que poderá existir até quem não tolere o fato de falarmos de racismo nessa retrospectiva da “Tribuna Esportiva”, quando até hoje nada escrevemos sobre o assunto.

Mas calma aí!

2019 ainda não terminou!

Prometo que falaremos do racismo no esporte na próxima semana A qualquer custo…

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