O gesto de Cristiano Ronaldo, as ações da Coca-Cola e a inferência probatória

Além do título da Itália, a última Eurocopa foi marcada por inúmeros gestos e simbolismos que transcenderam ao espetáculo desportivo. Combate ao racismo, homofobia e queda de ações de uma grande multinacional em razão de um gesto de um atleta, foram apenas alguns fatos que ocorreram e que merecem ser enfrentados de forma individualizada.

Trataremos do gesto do jogador português Cristiano Ronaldo que ao iniciar uma coletiva de imprensa, retirou duas garrafas de Coca-Cola que estavam na sua frente e falou “água”, em português (curioso notar que o treinador da seleção ia acompanhar o atleta no gesto, mas se deu conta que não seria politicamente correto com o patrocinador e desistiu imediatamente).

Algumas horas após o gesto do atleta, foram inúmeros os artigos que propagavam, nos quatro cantos do globo, que aquele gesto fez com que as ações da empresa perdessem 4 bilhões de dólares. Apenas no Brasil podem ser citados veículos como “Globo”, “Exame”, “Valor Econômico”, “Estadão”, “Isto é”, dentre outros.[1]

Não pairam dúvidas acerca do gesto de Cristiano Ronaldo e nem do seu poder de influência sobre produtos, marcas e pessoas. Contudo, em artigo muito bem fundamentado (e com base em pesquisas confiáveis), Nuno Fernandes esclarece que outros fatores afetaram as ações da Coca-Cola[2]. A saber:

  • A Coca-Cola tem 4,3 bilhões de ações que no dia 11 de junho fecharam com uma cotação individual de U$ 56,16, razão pela qual o valor de mercado da empresa era de U$ 242 bilhões;

  • No dia 14 de junho, Wall Street abriu às 09h.30 (de NY, equivalente a 14h.30 de UK), quando as ações da Coca-Cola estavam em queda, sendo avaliadas em U$ 55,26 e o valor de mercado era de U$ 4 bilhões inferior ao do dia anterior

  • Quando Cristiano Ronaldo retira as garrafas de Coca-Cola, às 09h.43 de NY, o valor das ações da empresa já era inferior ao do dia anterior.

Além disso, outros fatores estão relacionados com a queda do valor nominal das ações da Coca-Cola. Dentre eles:

  • Dez minutos após a abertura de Wall Street, toda a Bolsa estava sendo negociada em baixa. A Ford, por exemplo, perdia mais de U$ 2 bilhões em valor de mercado.

  • Exatamente no dia 14 de junho, as ações da Coca-Cola deixaram de pagar dividendos, conforme anuncio que havia sido feito 1 ano antes, fato este que contribui com a desvalorização das ações da empresa.

  • O valor das ações da Coca-Cola subiu no restante daquele dia, após a coletiva de imprensa.

O esporte de um modo geral, mas principalmente o futebol, tem a capacidade de formar ícones e de transformar em celebridades mundiais os atletas que se destacam. O futebol já movimentou anualmente cerca de 2/3 do que movimentou uma grande indústria automobilística e é responsável por geração de empregos e mobilizar cifras elevadas de patrocínios, publicidade, transmissão, turismo desportivo, marketing, dentre outros.

Com efeito, o estudo das atividades desportivas é um excelente laboratório para a compreensão geral do comportamento humano e análise das sociedades.

Mas é preciso muita cautela para que, diante deste contexto encantador, as afirmações não sejam desprovidas de uma análise empírica dissociada de pesquisas confiáveis com robusta análise de dados.

Muitas das vezes as notícias equivocadas são fruto de uma inexperiência do jornalista que no afã de ser o protagonista de um “furo” jornalístico acaba por se precipitar. Porém, estas matérias podem ser fruto de notícias falsas que se espalham rapidamente em razão do espetáculo imediatista que a internet proporciona e acabam por influenciar decisões empresariais e até políticas governamentais.

Não há dúvidas que nós trazemos os nossos próprios “conceitos” pré-existentes quando nos deparamos com uma informação ou notícia.

O Professor da Universidade de Alicante, Daniel González Lagier[3], afirma que provar um fato consiste em mostrar que, a luz da informação que temos, é justificável aceitar que esse fato ocorreu. Trata-se, portanto, de um tipo de raciocínio denominado inferência probatória, no qual podemos distinguir vários elementos: o fato que queremos provar, a informação da qual dispomos e uma relação entre o fato que queremos provar e os indícios.

No caso do gesto de Cristiano Ronaldo, por alguma razão, alguém entendeu, por bem, encontrar um elo daquele fato com a queda das ações da Coca-Cola, ou seja, duas situações que de fato ocorreram, mas que foram independentes. Para se “provar” este fato, foram criados indícios que foram propagados como verdade absoluta.

Em algumas ocasiões, o enlace entre os fatos que desejamos provar e os indícios que dispomos consiste em uma generalização a partir de experiências prévias. Podemos distinguir, portanto, entre as inferências probatórias cujo enlace é uma máxima de experiência e aquelas cujo enlace é uma norma ou regra. As primeiras podem ser denominadas de inferências probatórias epistêmicas e as segundas de inferências probatórias normativas.

Portanto, precisamos formular um pensamento crítico quando nos deparamos com uma notícia e não podemos aceitar um fato como certo, baseado apenas em uma única história.

……….

[1] Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/06/15/cristiano-ronaldo-faz-coca-cola-perder-us-4-bilhoes-na-bolsa.ghtml. Acesso realizado em 20.07.2021.

[2] “Ronaldo e as Ações da Coca-Cola”. Jornal Expresso, 09 de julho de 2021, p. 29.

[3] LAGIER, Daniel González. Argumentación Jurídica. Studios sobre la Prueba. 1ª Ed. México: Universidad Nacional Autónoma de México, 2006. ISBN 970-32-3369-4.

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