Onze entre a razão e a paixão

Por Cáscio Cardoso

A Taça Libertadores da América vem sendo trabalhada há algum tempo pela Conmebol para melhorar e tentar estabelecer alguma relação de equivalência com a Liga dos Campeões da Europa. A decisão em jogo único, a partir de 2019, foi um grande passo nessa direção. Porém, será que existe também uma preocupação da principal entidade do futebol sul-americano em preservar o passado “romântico” da competição, aquele das pancadarias, buracos nos gramados, expulsões no atacado, das histórias de cachorros entrando em campo, das polícias protagonistas, dos túneis salvadores de atletas, da fumaça de gás lacrimogêneo, dos problemas diplomáticos, da claque ensandecida pendurada nos alambrados, das camisas meladas de sangue, ou seja, da Libertadores “raiz”? Para avançar na lógica mais contemporânea do evento esportivo atraente, do entretenimento mais estruturado, tanto para espectadores (os mais diversos, não só os apaixonados pelos clubes) quanto para patrocinadores e parceiros, a Conmebol não pode deixar que um jogo aconteça com um clube indo a campo sem goleiro e sem jogadores disponíveis no banco de reservas por causa de um problema sanitário. Ou pode?

Enzo Pérez, Casco, Maidana, Lecanda, Héctor Martínez, Angileri, Paradela, Felipe Peña, Carrascal, Julián Álvarez e Fontana. Técnico: Marcelo Gallardo.

Esses 11 atletas, inclusive com um meio-campista improvisado no gol, conseguiram fazer o River Plate vencer o Independiente Santa Fé, da Colômbia, e assumir a primeira colocação do grupo D, a uma rodada do fim. Sem substituições disponíveis, sem goleiro, com muita garra, dedicação, com estratégia clara e muito bem executada de tentar criar alguma vantagem no placar enquanto os atletas tinham fôlego. Em menos de 10 minutos o Monumental de Nuñez já era palco de um grande feito, com o 2×0 para os Milionários. A internet “quebrou”, o jogo foi para os trend topics, os personagens exaltados e a história contada em diversas línguas. Pessoas buscavam canais para assistir ao confronto e, depois, para assistir aos melhores momentos. Queriam ver Enzo Pérez fazer movimentos estranhos para um goleiro, o time colombiano tentando chutar de qualquer lugar, queriam ver até onde resistiriam 11 atletas que nunca jogaram juntos por 90 minutos, em um futebol cada vez mais físico. Queriam enaltecer Gallardo, que “é capaz de treinar um time de chiuauas”. Queriam enaltecer o heroísmo de um jogo que ficará para sempre marcado no coração e na memória dos torcedores do River, do Santa Fé e de quem é apaixonado por futebol. Será que os patrocinadores gostaram? Será que o River vendeu mais camisas? Esse jogo aconteceria na Liga dos Campeões? Nisso tudo eu só tenho duas certezas: uma, é que o futebol ganhou mais uma história para ser contada, seja em livro, em filme, série, ou mesa de bar. A outra é que ainda não há receita para separar o romantismo de um evento heróico do futebol do aspecto amador que permitiu que ele acontecesse.

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Cáscio Cardoso é apresentador e comentarista esportivo da Rádio Sociedade da Bahia, do Podcast 45 Minutos e do Futebol S/A. Acredita em um futebol melhor a partir do aprofundamento das ideias e do equilíbrio na relação entre paixão e razão na condução do esporte mais encantador do mundo. É sócio do Futebol S/A.

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