Soy dono de ti, América?

Por Marcelo Azevedo

É difícil mesmo não ceder aos encantos sedutores que motivam o nosso orgulho ufanista quando a questão em pauta é a que nos coloca em posição de soberania quanto ao futebol jogado na América do Sul.

Sendo assim, não é estranho que os mais apressados partam logo de saída para o ataque e saiam cravando um orgulhoso SIM à resposta provocativa do título deste artigo. Esta resposta imediata, mas também arriscada, justamente porque a mais fácil, revela muito do espírito brasileiro, que há muito tempo se entende assim, como os verdadeiros “donos da bola” nessa parte do planeta, aliás, para sermos mais precisos, o brasileiro acredita mesmo que o futebol, ainda que inventado na terra da Rainha, só começou realmente a ser jogado quando aportou por aqui trazidos nas malas de Charles Miller. Sim, nós bem sabemos que isso foi história para inglês ver, mas imagina você se Deus que é brasileiro permitiria que este esporte pudesse ser melhor praticado em outro canto do mundo. Nem pensar, muitos dirão.

Mas naturalmente que esta questão não nasceu do Pachequismo do torcedor brasileiro, os números, notadamente nos últimos 30 anos, demonstram que além um aumento significativo de vitórias de clubes brasileiros nos principais torneios do continente, houve também um aumento expressivo de títulos da seleção brasileira na Copa América, e não apenas isso, mas uma consolidação da supremacia canarinho nas eliminatórias e/ou nos jogos das fases finais da Copa do Mundo. Ninguém venceu tantos confrontos diretos na América do Sul.

Bom, então se temos uma possível tendência em curso, é sempre recomendável que se vá buscar no passado possíveis ocorrências históricas que definam semelhanças entre períodos hegemônicos, de nossa seleção ou de nossos rivais sul americanos, para então termos condições comparativas que nos auxiliem se somos ou não hoje os donos da América. E a constatação que logo chegamos é que sim, já houveram outros períodos de grande hegemonia do futebol de um país em relação aos demais do continente sul americano. Na verdade não apenas de um país, mas de dois.

Uma vez que torneios entre clubes começam a acontecer apenas no final dos anos 40 no hemisfério sul das américas, para se entender a afirmação da dupla supremacia, será preciso se concentrar primeiramente no desempenho das seleções nacionais.

E a realidade mais que evidente é que as seleções uruguaia e argentina foram hegemônicas por mais de 40 anos na América do Sul, tendo tal domínio encontrado seu ocaso apenas em meados dos anos 50, se considerarmos os uruguaios, e o final dos anos 80 e início dos anos 90, para os argentinos.

Comecemos então pelos uruguaios.

Neste longo intervalo de tempo, a seleção celeste venceu as olimpíadas de 1924 e 1928, período em que este torneio era reconhecido como o único do planeta a reunir seleções nacionais. Nestas duas olimpíadas, os uruguaios não perderam uma única partida, na verdade, eles venceram todos os seus jogos, só empatando a partida final do torneio de 1928 contra a Argentina.

No período entre 1916 (ano do primeiro torneio sul americano de seleções) e 1957 (um ano antes do primeiro título mundial do Brasil) foram disputados 25 campeonatos entre os países do continente, tendo o Uruguai vencido 9 edições e ficando com a 2a colocação em outras 4, ou seja, o país esteve nas finais em mais de 50% das oportunidades disputadas.

Tem mais?

Tem, tem muito mais, porque não satisfeitos, a celeste olímpica venceu também a primeira Copa do Mundo, disputada em seu próprio país em 1930. Como eles ficaram de fora das Copas de 1934 e 1938, e não houve torneio em 1942 e 1946 por conta da 2a Guerra Mundial, eles só voltaram a disputar uma partida de Copa em 1950, oportunidade em que são novamente campeões sem perder uma única partida, empatando apenas o jogo contra a Espanha, já na fase final do torneio. É um período de absoluta hegemonia da seleção uruguaia.

Este longo período começa a entrar em declínio a partir da Copa de 1954 disputada na Suíça, quando finalmente os uruguaios perderam uma partida em mundiais, isso já nas semifinais do torneio, num confronto épico contra os lendários húngaros liderados por Púskas. Isso é ou não é um domínio inconteste?

E quanto aos argentinos?

Bom, os hermanos também alcançaram números impressionantes durante os primeiros 50 anos do século XX.

No mesmo período citado acima para ilustrar a supremacia do Uruguai, os argentinos conquistaram 10 torneios sul-americanos, sendo que fizeram 6 finais contra a seleção brasileira. Venceram todas.

Impressionou o mundo entre 1942 e 1946 o inesquecível River Plate, que ficou conhecido como a “La Máquina” (para muitos historiadores, vem dela a inspiração do futebol total jogado pelo Ajax dos anos 60 e da seleção holandesa de 74), time que foi a base da seleção argentina que venceu os sul americanos de 41, 45, 46 e 47 e que, por um fato histórico importantíssimo, não deu a Argentina títulos mundiais anteriores ao do Brasil. É, a segunda guerra mundial inviabilizou a disputa dos mundiais de 42 e 46.

Ah, nunca é demais lembrar que a Argentina não disputou o sul-americano de 1949 que o Brasil foi o campeão, acabando com um jejum de títulos oficiais de 27 anos da sua seleção principal, já que o último título havia sido o sul-americano de 1922.

O mais incrível é que mesmo no período de ouro do futebol brasileiro, entre as copas de 58 e 70, o Brasil não conseguiu vencer um Campeonato Sulamericano sequer. E olhe que houveram diversas edições do torneio neste período e chegamos a jogar a edição de 1957 (ainda sem Pelé) e 1959 (agora com Pelé) com a base da seleção campeã mundial em 1958. Não era pouca coisa e nestas duas edições fomos à final, sempre contra a Argentina. Perdemos ambas.

Para finalizar, lembremos que entre 1978 e 1990 foram disputadas 4 copas do Mundo e a Argentina fez 3 finais. Venceu duas delas, em 1978 e 1986. Neste período estivemos longe do título, ainda que tenhamos produzido a fantástica geração de 82. É também verdade que os argentinos não conquistaram nenhum torneio sul-americano neste período, não tendo nem mesmo disputado alguma final do que passou a se chamar Copa América. Eles só voltam a conquistar esse torneio em 1991, quando fazem a final contra o Brasil. É impressionante o domínio argentino nas finais contra a nossa seleção, essa foi a 8a final do sul americano (ou Copa América, como queiram) entre as seleções, todas vencidas pelos hermanos.

Este domínio no passado foi tão expressivo que mesmo com a reação da seleção brasileira nos últimos 30 anos, a distância ainda segue sendo grande. Já considerando a edição realizada este ano aqui no Brasil, as seleções da Argentina e do Uruguai tem 15 títulos cada uma, deixando a nossa seleção bem para trás, com 09 títulos. Já foi muito pior, pois até 1989 havíamos conquistado apenas 3 títulos. Como este torneio será realizado agora apenas de 4 em 4 anos, o Brasil só conseguirá alcançar estes países em 2044, e isso se vencer todas as edições até lá.

Para concluir essa trajetória histórica, se considerarmos o ranking de pontos acumulados nas participações da Libertadores da América entre 1960 e 2020, vamos ter liderando esta lista dois argentinos e dois uruguaios. Mais um indício de que eles reinaram por muito tempo. Porém, depois de um significativo domínio argentino na libertadores, especialmente nos anos 70 e 80, os anos seguintes promovem um ressurgimento do domínio brasileiro, desta vez não apenas no nível doméstico, mas em escala mundial, com a volta de conquistas de Copas do Mundo e da tão sonhada glória olímpica.

É justamente com a chegada dos anos 90 que os nossos clubes e nossa seleção, finalmente, conseguem assumir a hegemonia de títulos do continente.

Neste período o contexto econômico passa a fazer parte de maneira irreversível da dinâmica do futebol. Não é coincidência o Brasil ter promovido em 1994 o Plano Real, um plano econômico que recuperou a economia brasileira e nos faz passar a ter o que Tom, meu companheiro de bancada, chamou de força gravitacional, que pode ser compreendido como uma capacidade de atração de talentos e recursos que desequilibraram a balança de poder no futebol.

Se o futebol uruguaio jogado pelos clubes já não conseguia disputar em condições competitivas desde meados dos anos 80 os torneios sul-americanos, ao menos a sua seleção, recheada de craques que jogam nas principais ligas do mundo, ainda consegue fazer frente até hoje ao futebol das demais seleções do continente. De seu lado, o futebol argentino caminha nos últimos anos para refletir as fragilidades de um país que deposita suas esperanças num combo potencialmente trágico: Moeda fraca e planos econômicos mirabolantes como o “cepo cambiário”, um caminho penoso para o seu povo.

Para finalizar, resta claro que o futebol brasileiro jogado pelos clubes, dada a maior solidez econômica do país, tende a se tornar hegemônico na América do Sul, com tal domínio se ampliando para mais de um clube, inclusive. Retrato disso é que em 2019 o Flamengo foi campeão. Em 2020 a final foi brasileira e em 2021 temos 3 times brasileiros dentre os 4 semifinalistas.

Não é coincidência. A América do Sul parece estar emulando o que acontece dentro dos limites geográficos brasileiros, onde é possível identificar um processo acelerado de distanciamento financeiro entre os clubes.

Mas e quanto às seleções? Bom, aqui é possível se perceber a partir de 1989 um movimento que também poderia ser traduzido numa tendência, pois são dois títulos mundiais e dois olímpicos, além de 06 títulos de Copa América, conquistados. Além disso, o país faz uma eliminatória para a Copa de 2022 no Catar bastante tranquila, onde exerce uma sólida liderança frente a quase todos os concorrentes até aqui.

Bom, e é aí que reside a questão que levanta ainda dúvidas acerca de uma hegemonia também da seleção, tal qual os clubes brasileiros. Quase todos porque o jogo contra a Argentina acabou (ou nem começou) daquele jeito que todos sabemos. Nunca saberemos o resultado final.

Mas a última edição da Copa América que foi realizada aqui no Brasil acabou de acabar. E sabe quem fez a final contra o Brasil? Eles mesmos, os argentinos.

Consegue imaginar o resultado?

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Marcelo Azevedo é formado em Administração de Empresas com MBA em Gestão de Negócios. Publicitário por adoção, atua há mais de 30 anos liderando áreas de gestão e finanças. É convicto da força que o ecossistema do futebol pode produzir ao seu entorno. Torcedor raiz, é um amante do jogo bem jogado, da boa disputa, mas gostar, gostar mesmo, ele gosta é do Botafogo, até mais do que do futebol. É sócio do Futebol S/A

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