Sportswashing

“Lavagem cerebral das massas” é a expressão utilizada para simbolizar todo esforço realizado por alguém para fazer com que determinado grupo pense de forma diferente da qual pensaria se tivesse acesso à verdade dos fatos.

Tal expediente é utilizado muito comumente por Estados totalitários, que costumam se valer do controle que possuem sobre os meios de comunicação  e do sistema de ensino, difundindo propaganda visando moldar as opiniões de seus súditos a fim de permitir a manutenção do status quo reinante.

Outro tipo de lavagem cerebral massificante está relacionado ao mundo esportivo. Trata-se do Sportswashing, denominação criada para indicar quando alguém se utiliza do esporte para melhorar sua imagem perante os demais, especialmente para camuflar violações aos direitos humanos. Cuba, Rússia e China, por exemplo, são conhecidas por fazerem isso.

Ocorre que o Sportswashing ganhou uma nova face no século XXI. Não se trata mais de estimular as seleções nacionais a conquistarem vitórias em competições internacionais. Agora, países “pouco democráticos” vem se utilizando do poderio econômico que possuem para entrar no sistema esportivo de outros países.

A final de 2020 da Champions League é um exemplo desse fenômeno. PSG e Bayern de Munique são financiados por entidades ligadas ao governo do Catar.   O Bayern de Munique tem entre seus patrocinadores a companhia aérea Qatar Airways. Por sua vez, a situação do PSG é ainda mais desconfortável: o time de Paris pertence desde 2011 a um fundo de investimentos vinculado ao governo do Catar.

O Catar não está sozinho nessa. O Manchester City é financiado pelos Emirados Árabes Unidos e o fundo soberano da Arábia Saudita esteve a ponto de comprar o Newcastle da Inglaterra.

O Catar vem sendo sistematicamente acusado por entidades internacionais pela sua postura de desrespeito aos direitos humanos, especialmente na construção dos estádios para a Copa de 2022 e na sua intolerância com o público LGTB.

A questão ética que não quer calar é a segunite: Será que o esporte se coaduna com o financiamento advindo de fontes que não respeitam os mais elementares direitos do homem?

Não é preciso pensar muito para responder. Veja-se, a propósito, que por conta do Apartheid, a África do Sul foi proibida de participar de sete edições dos jogos olímpicos (1964 a 1988). Entretanto, é curioso que nenhum movimento parecido tenha surgido, para conter o avanço das ditaduras em direção aos mais tradicionais clubes europeus.

A diferença deve estar no dinheiro. Talvez tenha sido mais fácil boicotar a África do Sul, porque com uma economia frágil, o país não exercia grande influência na geopolítica internacional. Por outro lado, a situação financeira e o poder de barganha do Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita é bem diferente…

O fato é que os clubes financiados por esses países perderam totalmente a sua identidade. Tornaram-se meros instrumentos de Sheiks, Emires e magnatas que fizeram fortuna por meios pouco ortodoxos…

As federações internacionais também. A Arábia Saudita sediou a final deste ano da Supercopa da Espanha 2020 e foi sede de Campeonatos internacionais de golfe, lutas de boxe, o rali Dakar, dentre outros e pretende sediar uma das etapas do campeonato de Fórmula 1 em 2023.

Por sua vez, o Catar será a sede da Copa do Mundo de 2022 e tem seus estádios construídos às custas do trabalho forçado de operários estrangeiros, que também sofrem de fome e padecem das mais variadas formas de violência, conforme já apontado pela Anistia Internacional.

Este é o efeito negativo que o esporte pode desencadear quando mau utilizado. Ele tem a capacidade de produzir uma verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, levando-as a idolatrar dinastias opressoras ou regimes totalitários.

Mas poucos torcedores estão preocupados com isso.

Afinal, o que importa é ver seu time sagrar-se campeão, não é mesmo?

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