Um Black Mirror chamado futebol

Por Renato Gueudeville

Black Mirror é uma famosa série que trata das relações humanas com as tecnologias. Uma ficção científica que faz críticas e reflexões da dependência das atuais gerações aos mais diversos dispositivos eletrônicos, mas é acima de tudo, sobre o estágio atual da humanidade e a realidade paralela, construída a partir da relação entre o homem e a tecnologia.

Domingo, 18 de abril de 2021 – Doze grandes clubes da Europa anunciam a criação de uma Superliga, além de mais 3 participantes a serem escolhidos posteriormente.

Domingo, 2 de maio de 2021 – Em jogo válido pelo campeonato paulista, Corinthians e São Paulo se enfrentaram na Neo Química Arena em um empate movimentado. A Federação marcou o jogo para às 22h:15. Você não leu errado: o jogo começou às 22h:15 de um domingo.

Quinta-feira, 13 de maio de 2021 – América de Cali x Atlético Mg. Os dois times se enfrentaram pela fase de grupos da Libertadores, partida vencida pelo time brasileiro. Nos arredores do estádio Romelio Martinez, polícia e manifestantes entravam em confronto, com direito a bombas, para dispersar a multidão. A partida foi paralisada, pelo menos cinco vezes, com os jogadores sentindo o efeito do gás lacrimogênio e, mesmo assim, a partida não foi interrompida e seguiu até o final.

Inúmeras são as situações em que o futebol parece se desconectar da realidade. Todo o ecossistema da bola atua com o claro posicionamento de ser o “maior dos maiores esportes”. E, de fato, não há dúvidas de que essa é uma verdade. O problema é o desdobramento dessa percepção.

A articulação de um suposto G12 europeu – ancorado pelo poderoso banco JP Morgan e os seus 3,5 Bi de Euros de financiamento para iniciativa – não foram suficientes para sustentar por mais de 3 dias a ideia de criação de uma liga com os gigantes da Europa. Protestos ecoaram em diversos países, por diversas torcidas, a ponto de virar uma pauta do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Uma ideia que não contemplou o maior player dessa história: os torcedores. É a realidade paralela dos gigantes da bola.

A Colômbia vive um momento conturbado pela proposta de reforma tributária do Presidente Iván Duque. Os protestos começaram no final de abril, em sequência houve a renúncia de toda equipe econômica do governo. Centrais sindicais, caminhoneiros (as realidades entre países nem sempre estão tão distantes), taxistas, estudantes e grupos indígenas foram às ruas. O saldo? No mínimo, 43 mortes ocorreram até o dia que este artigo foi escrito.

Quais as condições mínimas de segurança para e termos um jogo de Libertadores nesse caos? Qual a legitimidade que o futebol pode ter para seguir em frente com seu calendário em situações extremante complexas, como essa da Colômbia?

É a realidade paralela das Confederações.

A desconexão do ambiente do futebol dos outros esportes é brutal e, no Brasil, esse fosso é imenso.

Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, certamente teria escrito, em uma das suas colunas na revista Manchete Esportiva, sobre o fim do “complexo de vira-latas” e o nascimento do “complexo de grandeza”.

“Somos o país do futebol”, “nossos atletas são os melhores do mundo”, a “seleção nunca perde sua majestade”. O país pode parar na pandemia, mas “o futebol precisa continuar”, afinal de contas, “ele ajudará as pessoas a seguirem em frente.” Essa é a mentalidade de muitos que habitam o ecossistema do futebol.

O que leva a uma Federação marcar um dos clássicos mais tradicionais do futebol brasileiro às 22h:15? Uma das correntes é que esse horário favorece a menores aglomerações em bares e torcidas organizadas perto dos estádios, situação necessária em função da pandemia. Ora, se isso for verdade, é o atestado de que o futebol vive na bolha por quem faz ele no dia a dia. É a realidade paralela das Federações.

Nunca é tarde para lembrar que o dia útil da semana mais importante, na grade do futebol na TV brasileira, é a quarta-feira. E qual o horário definido para início de uma partida de futebol? Às 21h:30 (e por diversas vezes já foi 21h:50), tudo isso em um país com diversas dificuldades de mobilidade e com grandes hiatos de segurança para sua população. Um jogo neste horário em Itaquera, no Maracanã ou na Fonte Nova, certamente fará com que o torcedor dos seus clubes chegue em casa (se tudo der certo) com uma hora de deslocamento. E quantas pessoas estão nas arquibancadas e começam suas jornadas de trabalho bem cedo? Você apostaria que é a maioria ou minoria de quem vai aos estádios?   É a realidade paralela da TV.

Muitos clubes brasileiros convivem com estruturas ruins, com déficits em seus Balanços Patrimoniais ano após ano, acumulam dívidas que crescem exponencialmente, recebem bloqueios judiciais em suas contas por não honrarem acordos ou simplesmente, por não pagarem seus compromissos. E o que fazem seus dirigentes? Exercícios mirabolantes de orçamentos que nunca fecham as contas, contratações no “Modo Vampeta” (“eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo”), rescisões sem assumir seus compromissos trabalhistas para deixarem a conta para os próximos gestores, ausência de mínimos critérios na contratação de técnicos e formação de elencos. É a realidade paralela dos clubes e de alguns players do ecossistema.

Você pode perguntar: Como os jogadores e os agentes deles entram nessa? Neste caso, a realidade se confunde com a paralela. Esse é um jogo que todos sabem jogar. Aqui, duas retas paralelas se cruzam, sim.

E a Fifa nisso tudo? Matérias publicadas há poucos meses atrás, do jornal britânico The Guardian, trazem um número estarrecedor: cerca de 6.500 trabalhadores estrangeiros já perderam a vida em obras de infraestrutura e de construção dos estádios da Copa do Mundo do Catar. Cidadãos da Índia, Sri Lanka, Paquistão e Bangladesh estão entre os mortos.

Uma rápida passagem pelo site da Fifa e você notará que parte da comunicação institucional da entidade está sempre relacionada a relação de poder dela com governos de países. Os ciclos financeiros da entidade acontecem a cada 4 anos – em Copas do Mundo – momento em que ela está muito próxima das estruturas de poder das nações que recebem a competição. Qual outra entidade esportiva possui relações tão estreitas nesse espectro de poder? Arrisco a dizer que nem o COI. É a realidade paralela da entidade-mãe.

O futebol é o maior esporte do mundo e disso ninguém tem dúvidas. Porém, isso não dá ao ecossistema a legitimidade de criar sua própria bolha e simplesmente ignorar conjunturas de nações e seus povos, suas culturas, hábitos de consumo, condições econômicas e de segurança.

Essa realidade paralela é retroalimentada pelos interesses dos envolvidos no sistema e da parte mais importante desse roteiro e que permite se alienar dessas questões: o torcedor.

Na vida, o futebol não é ator principal. É, no máximo, um ator coadjuvante que concorre todos os anos ao Oscar. Chega de dar cartaz a certos filmes e valorizar certos atores canastrões.

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Renato Gueudeville é Administrador de Empresas com MBA em Finanças Corporativas. Gestor com know-how em reestruturação empresarial e atuação pelas principais instituições financeiras do país. Acredita que no mundo da bola, fora da gestão não há salvação. É sócio do Futebol S/A.

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