Uma travessia sem fim

A organização de quase tudo passa por regras. Em casa não é preciso que sejam escritas, nem complexas. Elas dizem respeito a um círculo limitado de pessoas que vão estar informadas de qual é a organização que precisa ser respeitada. O Théo e a Lara, meus filhos de 3 e 5 anos, já sabem que, se um bater no outro, nada de desenho na TV, por exemplo.

Agora, quando envolve mais gente, é necessário criar regulamentos. Num universo transnacional como o da Lex Sportiva, é preciso haver critérios, regras e leis que garantam também segurança, física e esportiva, aos envolvidos no esporte. E essas são estabelecidas de diferentes maneiras, por meio do costume, da prática, dos diálogos, das provocações jurídicas que o próprio esporte vai sofrendo e, também, a partir de tragédias.

Esta é a história de uma jovem, talentosa, corajosa e determinada nadadora brasileira, Renata Câmara Agondi. Com 25 anos ela decidiu enfrentar o Canal da Mancha, que está para os nadadores como o Everest está para os alpinistas: um desafio gigante. A travessia entre Inglaterra e França, nas águas geladas que ligam o oceano Atlântico ao Mar do Norte, impõe ao atleta outros complicadores além dos quilômetros de braçadas. A travessia é dificultada pelas baixas temperaturas, entre 12ºC e 17ºC, pelas mudanças climáticas, pela presença de manchas de esgoto e de óleo e mais de quatrocentas embarcações que cruzam esse trajeto todos os dias.

Claro que Renata se preparou para a prova. Além de ser nadadora de destaque no Brasil, passou a participar de travessias internacionais. Em 1986, dois anos antes da prova no Canal da Mancha, viajou para a Itália. Lá participou da travessia Capri-Nápoles, de 33 km de mar. Nove horas, num mar gelado, enfrentando águas-vivas, ondas e ventos. Ela chegou em terceiro na prova feminina e em sexto na classificação geral. Ela se tornou a primeira nadadora brasileira em águas abertas na elite internacional.

Renata chegou a Dover, na Inglaterra, para a travessia, acumulando 238 medalhas e 40 troféus, e na companhia de Judith Russo, uma amiga de Santos que se tornou uma espécie de treinadora dela. Judith seria a responsável por passar as instruções durante a prova.

Dias antes da largada, problemas.

Cada nadador é acompanhado por um barco. Nele vão, além do treinador, um piloto, um copiloto e um fiscal da travessia, o representante da organização da prova. O piloto do barco de Renata passou mal e indicou outra tripulação, com um novo barco. O barco Hilda May era mais alto do que o outro com o qual elas haviam treinado, o que dificultaria a entrega de alimentos. Além disso, Colin Cook e Graham Featherbee, piloto e copiloto, não tinham a mesma experiência, nem haviam treinado junto com Renata e Judith. Mesmo assim, a nadadora aceitou os novos parceiros.

O fiscal indicado pela organização para acompanhar Renata foi Mark Eduard Lewis, jovem nascido nos Estados Unidos. A nadadora brasileira não sabia que Lewis estava na Inglaterra na condição de acompanhante de um professor que tentaria a travessia por aqueles dias. A organização pediu a colaboração de Lewis, que aceitou, sem entender o tamanho da responsabilidade que tinha.

Às 8h22 do dia 23 de agosto de 1988, Renata partiu da praia de Shakespeare Beach em busca do maior feito na carreira: atravessar o Canal da Mancha. Ela treinou para isso. Estava pronta. Iria até o fim.

A primeira metade da prova foi fantástica. 80 movimentos de braço por minuto, vento leve e ritmo constante. Em menos de cinco horas já estava na segunda metade da travessia.

O problema foi o que aconteceu depois. Nas quatro horas seguintes, a brasileira não nadou mais do que 5 km. Renata estava nadando em uma rota errada. O barco não a ajudava a encontrar o caminho.

O barco de Colin Cook e Graham Featherbee não acompanhava a nadadora da maneira certa. Ele ultrapassava a nadadora e a deixava passar novamente, repetindo a manobra. Essa manobra não é a adequada, já que, quando o barco está à frente, o nadador força o pescoço para avistá-lo. Se o barco está atrás, o nadador está sem direção. Quem dá direção ao nadador em uma prova assim é o barco.

Mais de dez horas depois da largada, ela ainda estava longe da terra e nadando sem ir a lugar algum. Retomar a rota já não era mais possível. Não haveria fôlego e braço para tanto. A travessia precisava ser cancelada. O clima ficou tenso, já que a tripulação se deu conta do erro muito tarde. Com 10h45min de prova, eles aproximaram o barco da nadadora e jogaram a boia no mar. Renata viu a boia. Em razão do tempo e da boa performance, ela acreditou que estava perto da costa. Estava preparada para nadar até a praia. Se negou a segurar a boia – nas provas, agarrar a boia significa desistência, e encostar no barco representa desclassificação.

A equipe precisou acionar a Guarda Costeira para resgatar Renata. Ela foi retirada do mar a 7 km da chegada. De helicóptero, foi levada para um hospital de Calais, mas já era tarde. A nadadora morreu de parada cardíaca, provocada por hipotermia e exaustão.

Após cinco anos de processo, piloto e copiloto da embarcação foram condenados a seis anos de prisão.

E com a tragédia, o esporte também sofreu transformações. Uma série de mudanças importantes foi tomada para deixar as provas de maratonas aquáticas mais seguras.

Agora, além do treinador, o piloto do barco de apoio também passou a ter o poder de interromper a prova quando entender que o atleta está correndo perigo. Além disso, os técnicos passaram a ser profissionais, não apenas acompanhantes dos atletas que “auxiliavam” na travessia.

O treinamento e a preparação dos barqueiros também estão em outro nível. Atualmente é preciso reservar um barco para a travessia cerca de dois anos antes da viagem, o que evita improvisos e imprevistos como no caso de 30 anos atrás. São poucos os barcos autorizados, todos preparados e equipados. Renata, por exemplo, não fez nenhuma reserva.

Não há informações mais precisas, mas estima-se que dez atletas já morreram durante a travessia. Sete deles, depois da tragédia de Renata. Ao todo, 28 brasileiros completaram a prova.

Atualmente, a Maratona Aquática Internacional de Santos é chamada de Troféu Renata Agondi, em homenagem à brasileira.

Por isso, quando se pensa naquele dia 23 de agosto de 1988, não se pode dizer que as mais de 42 mil braçadas de Renata não levaram a lugar algum. Elas não colocaram a brasileira em terra firme, mas ajudaram a deixar o esporte que conquistou Renata mais seguro para amigos e companheiros de travessias.

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Mais sobre:

Documentário “Renata”, baseado no livro “Revolution 9”, lançado em agosto de 2002 e dirigido por Rudá Andrade.
Livro “Renata Agondi – Revolution 9”, escrito por Marcelo Teixeira e baseado nos diários da nadadora.

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Foto: UOL.

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