Doenças ocupacionais no esporte eletrônico

Quando foi discutido se eSport é esporte ou não aqui no eSports Legal, foi utilizada uma citação do Barão Pierre de Coubertin, criador dos Jogos Olímpicos modernos, que dizia que o esporte é o “culto ao exercício muscular intensivo, apoiado no desejo de progresso e podendo ir até o risco”.

Naquela oportunidade, mostramos que jogadores de algumas modalidades estão propensos a lesões decorrentes de suas atividades em razão da exigência de rápidos, intensos, numerosos e repetitivos movimentos com as mãos.

APM vs. norma de ergonomia do Ministério do Trabalho

São diversas as modalidades que exigem do atleta profissional agilidade com as mãos e os dedos, mas as modalidades do gênero RTS (Real Time Strategy) se destacam.

Isso porque nessa modalidade o jogador deve administrar toda uma sociedade, controlando individualmente cada trabalhador e soldado.

Para controlar centenas de trabalhadores e soldados, o jogador deve ter uma incrível habilidade de microgestão, utilizando dezenas de teclas de atalho para isso. É nesse sentido que as APM (Ações por Minuto) entram em jogo.

É possível identificar uma média de APM altíssima dentre os jogadores profissionais dessa modalidade (entre 200 e 700), e, só para se ter uma ideia, a norma regulamentadora 17 do Ministério do Trabalho, que trata da ergonomia, diz:

17.6.4. Nas atividades de processamento eletrônico de dados, deve-se, salvo o disposto em convenções e acordos coletivos de trabalho, observar o seguinte:
b) o número máximo de toques reais exigidos pelo empregado não deve ser superior a 8 (oito) mil por hora trabalhada, sendo considerado toque real, para efeito desta NR, cada movimento de pressão sobre o teclado; (117.033-3 / I3).

Fazendo a conversão de ações por minuto para ações por hora, a média de toques por hora desses verdadeiros atletas fica entre 12 mil e 42 mil, muito acima do limite de tolerância da norma de ergonomia brasileira.

Doença ocupacional

As doenças ocupacionais são as que “resultam de constante exposição a agentes físicos […] ou do uso inadequado dos novos recursos tecnológicos, como os da informática”¹, durante a atividade exercida.

Observando a exigência de altos números de ações por minuto para que um jogador consiga jogar em nível competitivo, será óbvio o nexo de causalidade entre uma lesão nos dedos, mãos, pulsos ou braços com a atividade profissional de atleta de eSport.

Além dos movimentos repetitivos, é necessário observar a quantidade de horas que o atleta passa sentado e usando fones de ouvido, já que também estão diretamente relacionadas à atividade profissional.

É dever do clube e da entidade de administração do esporte fornecer condições ergonômicas mínimas, assim como fiscalizar se os fones estão sendo utilizados de forma saudável, com níveis de decibéis que não prejudiquem o aparelho auditivo.

É importante observar, também, que, durante jogos com audiência presencial, é usual direcionar aos fones dos jogadores um chiado de nível altíssimo a fim de, em conjunto com fones especiais, abafar o som vindo dos narradores e dos torcedores.

Repercussões

Diversos atletas já foram afastados pelos clubes em razão de lesão nos braços, como o jogador Gabriel “tockers” Claumann, que ficou de fora da final do Campeonato Brasileiro de League of Legends de 2017 por conta de uma tendinite.

Um caso mais recente é o do jogador Luís “Absolut” Carvalho, pelo mesmo motivo, que desfalca a Team One desde o início da temporada atual.

Em casos como esses, o clube contratante deve emitir a CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho). Se não fizer, estará sujeito a multa, conforme disposto nos artigos 286 e 336 do Decreto nº 3.048/1999.

A CAT é importante para que o INSS dê o amparo correto ao atleta segurado, assim como para alimentar as estatísticas da Previdência Social, pois, apesar de muitas vezes o próprio clube esportivo oferecer o tratamento médico, o atleta incapaz de exercer suas atividades também terá direito a receber benefícios previdenciários.

………………….
¹ STEPHANES, Reinhold. Reforma da previdência sem segredos. Rio de Janeiro: Record, 1998

Compartilhe

Share on whatsapp
Share on telegram
Share on twitter
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email

Últimas Notícias

Colunas

Seções

Assine nossa newsletter

Toda sexta você receberá no seu e-mail os destaques da semana e as novidades do mundo do direito esportivo.